domingo, 4 de abril de 2010

Ilha do Mussulo

Ao largo de uma pequena parte da costa de Angola, a sul de Luanda, situa-se a ilha do Mussulo, nomenclatura que deu origem a uma discoteca de mesmo nome em Lisboa. Apesar de comummente assim caracterizada, a ilha do Mussulo é, de facto, uma península e um conjunto de ilhotas.

Para quem não tem um barco sempre ao dispor, como é o meu caso (o meu iate de recreio ficou em Portugal), é possível dirigir-se ao embarcadouro de Luanda, onde vários barcos, com os respectivos comandantes, aguardam a chegada dos passageiros.

Assim que estacionamos o carro, devidamente aconselhados por quem de direito nos indica o lugar e guarda a viatura, somos encaminhados para uma embarcação que nos levará ao nosso destino por apenas AKZ 500,00 (quinhentos Kwanzas), cerca de € 4,00 (quatro euros), a viagem.

Apesar de modestos, os barcos têm capacidade suficiente para a travessia, que não chega a quinze minutos. São distribuídos coletes salva-vidas a todos os passageiros porque, afinal, a segurança está primeiro:


Do mar, vamos contemplando a fabulosa ilha do Mussulo, com os seus coqueiros inclinados e as habitações construídas mesmo à beira-mar:


O Mussulo tem cerca de trinta quilómetros de extensão. Logo, existem vários locais que podem ser visitados. Na costa que fica do lado do país, existem várias habitações e alguns complexos turísticos (bares, aldeamentos, restaurantes, dormitórios, etc). Deste lado, a água é quente e o mar é sossegado. Infelizmente, é fácil encontrar entulho espalhado pela areia, deixado por quem efectuou construções para poder usufruir desta natureza maravilhosa mas não se importa de pisar tijolo enquanto passeia pela areia.

No interior da ilha, para atravessarmos para o outro lado, é frequente cruzarmo-nos com porcos ou seguirmos trilhos que nos levam a uma vegetação colorida e abundante:



Do outro lado da ilha, virado para o Oceano Atlântico, o mar é mais agitado (não demasiado) e a água não é tão quente (apesar de ter uma óptima temperatura na mesma) mas tem a minha preferência. Isto porque nos proporciona uma extensão imensa de areal quase deserto, um local sossegado (à excepção de uns condutores de moto 4x4 que passam de quando em quando), águas cristalinas, com os tubarões a espreitarem ao longe, mas em que ficamos com a praia praticamente toda só para nós.

E que praia:


Paradísiaco? Sem dúvida, mas apenas enquanto o Homem não conseguir estragar o que resta do Mussulo. Até lá, conto aproveitar o máximo que puder.

Sendo hoje um dia festivo, não poderia deixar de aproveitar o ensejo para desejar a todos uma Boa Páscoa.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Dia da Mulher no Mês da Mulher

Hoje comemora-se o dia internacional da mulher. Em Angola, o dia é merecedor de um feriado nacional.

Esta não é, contudo, a única curiosidade que, a este respeito, se pode escrever sobre Angola. Aqui, as mulheres não têm apenas um dia que lhes é dedicado. Aqui, as mulheres não recebem apenas um quase forçado "feliz dia da mulher" de uma boca qualquer. Aqui, às mulheres não são ofertadas rosas, flores que estão murchas 363 dias ao ano mas fazem sorrir durante duas semanas.

Neste país, o mês de Março é o mês da mulher. E até nesta questão Angola se mostra um país de contrastes. Em Março, é a mulher quem manda. Continuam a existir os dias do homem às sextas-feiras mas, nesta época do ano, o que elas dizem é para cumprir, afinal de contas, é o seu mês. Mês que, ao lhes ser dedicado, quase parece querer indiciar, aos mais desconfiados, tratar-se de uma compensação pelo facto de os homens terem as suas sextas-feiras, aqueles dias em que não têm hora para chegar nem existem justificações a dar a ninguém.

Neste mês existem dois géneros, atendendo ao alarido imenso que a comunicação social faz sobre a mulher, o seu dia, o seu mês, a emancipação, a igualdade de oportunidades e tudo o mais. Toda a gente fala da mulher. E, no entanto, as angolanas deixam escapar um quase imperceptível lamento, não por não terem recebido flores ou uma singela palavra de amor, mas tão-somente porque as únicas prendas que recebem são as mesmas do resto do ano, nem que seja uma sempre encoberta, frequente, e não denunciada violência doméstica. Mas o reconhecimento da existência da mulher na sociedade parece ser suficiente. E, mesmo assim, levantam-se de manhã, colocam os filhos às costas, os alguidares com 15 quilogramas de peso em cima da cabeça e prosseguem, essas lutadoras natas, de cabeça erguida. Um pouco pelo peso do alguidar, muito pela fibra com que são feitas.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Regresso a Luanda

Mais de um mês depois da minha ida à, aliás quase deprimente, "Tuga", regressei a Angola. Desta vez, não foi o já mítico Voo 251 da TAP que me trouxe, mas antes o voo 651 da TAAG. Sim, viajei numa companhia aérea angolana. Sim, a mesma companhia que, em tempos, foi proibida de viajar para o espaço aéreo Europeu por não respeitar as condições de segurança mínimas necessárias. Sim, depois de pensar que a viagem poderia ser algo aborrecida, com o avião a querer despenhar-se a qualquer instante, com os passageiros a gritarem que nem loucos enquanto tentavam passar por cima do pula que por ali andava a choramingar e que por acaso era eu, decidi, mesmo assim, embarcar.

Pensei tudo isto para descobrir que, na realidade, os aviões da TAAG são maiores, mais confortáveis e mais modernos do que os da TAP. Viajamos num "Boeing", em vez de num "Airbus", o que eleva a qualidade da viagem, em termos de espaço e estabilidade. Terá sido, curiosamente, a única viagem de avião que efectuei na qual não consegui sentir o momento exacto da aterragem, de tão suave que foi. Ou então foi porque estava a dormir. Mesmo assim, a TAAG que me perdoe, mas o nome do blog continuará a fazer publicidade ao voo da companhia aérea portuguesa.

Sem dúvida que as condições no aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, melhoraram desde a minha última viagem, certamente influência do evento desportivo CAN 2010, organizado por Angola em Janeiro.

Durante a viagem, tive, novamente, o privilégio de ir sentado junto a uma janela, o que me permitiu ir apreciando paisagens africanas lá do céu, se é que podemos considerar nuvens como uma paisagem. Mesmo assim, em África, parece que o sol está sempre mais próximo de nós:




Durante a minha estadia em Portugal, não consegui estar com todas as pessoas com quem gostaria de ter estado. Falei com vários amigos com quem não pude confraternizar e, por isso, me penitencio. De todo o modo, para se vingarem de mim, pensem que estou agora a apanhar calor, o que me faz suar, que tenho ido à praia nos fins-de-semana, o que faz com que a minha pele ameace cair. Acho que já estou a ser martirizado o suficiente, pelo que aquando do meu (novo) regresso, terão de me compensar devidamente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

(In)segurança em Angola

Ao contrário do que se possa pensar, não vou escrever exaustivamente sobre o atentado ocorrido na última sexta-feira em Cabinda, do qual resultou a morte de três pessoas que seguiam com a comitiva do Togo para disputarem o CAN 2010, organizado por Angola. Disso já toda a gente ouviu falar.

Quando surgem situações destas, os portugueses temem sempre. Temem os que estão em Angola, temem os que para lá vão e temem ainda os familiares daqueles que por terras angolanas têm algum ente querido.
Situações como a que ocorreu chamam à memória uma História não longínqua, mas afastada do pensamento: vivências inacabadas, mudanças repentinas, perdas materiais e humanas e a guerra, porque África sempre faz lembrar guerra, qual palavras sinónimas.

A capital angolana, Luanda, é uma cidade segura. Pelo menos, fora da zona dos "musseques". Certamente que é das capitais mundiais com maior número de polícias por metro quadrado e, apesar de por vezes lhes querermos escapar para não largarmos uns quantos dólares, o certo é que estes conseguem, apenas pela sua presença, tranquilizar o espírito de quem tem o seu dia-a-dia na cidade. Cidade essa, que tem uma mecânica fantástica, com um sistema bizarro, mas que na realidade funciona. Os senhores agentes da autoridade não auferem uma remuneração elevada, mas estão numa tão constante greve de zelo que ao mínimo deslize conseguem chamar a atenção para comportamentos inadequados dos cidadãos (tocar com o carro no passeio ao estacionar é um comportamento claramente inadequado) e resolver a situação na hora, beneficiando ainda a sua remuneração. O Estado gasta menos dinheiro, os polícias têm o dobro da atenção, conseguem aumentar a sua remuneração e os transeuntes e automobilistas têm mais cuidado.

Apesar de pouco conhecer ainda de outras cidades, posso afirmar que, tomando algumas evidentes cautelas e precauções, é perfeitamente possível passear a pé em Luanda. Diria até que em Cabinda é possível passear a pé. Agora, que já assassinaram três seres humanos.

Do resto, pouco fica, salvo a constante associação de Angola às palavras guerra e morte, a ideia de que o país permanece incapaz de se organizar a si mesmo, quanto mais um evento internacional de elevada importância e, por último, a sensação de que responsáveis pelo atentado  de Cabinda foram os Congolenses, que estão ali na fronteira, ou até mesmo os Togoleses, que optaram por viajar por terra numa região onde toda a gente sabe que existem guerrilhas organizadas, que são escassamente combatidas, e cuja solução encontrada para as desmantelar é aconselhar viagens de avião.

domingo, 3 de janeiro de 2010

"O Último Ano em Luanda"

O título deste post não se refere a uma reflexão do ano que ora findou, nem ao meu último ano na capital angolana, que não sei quando será, porquanto o futuro é sempre incerto.

Refere-se, isso sim, ao título de um livro da autoria do escritor e jornalista português Tiago Rebelo.
Foi o primeiro livro com uma vertente da História angolana que tive oportunidade de ler, sendo que a escrita, apesar de não ser sedutora, é simples e, passo a expressão, serve perfeitamente o papel do livro.

Trata-se de um romance que, aproveitando datas e factos históricos, nos prende com a narrativa acerca de um casal português que vive em Luanda nos anos da guerra civil e da consequente descolonização e, outrossim, nos ensina mais um pouco sobre aqueles anos vermelhos de sangue e cinzentos de dúvidas e histórias mal explicadas que assolaram a História recente das Repúblicas Portuguesa e Angolana.