quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Natal em Luanda

Só me apercebi verdadeiramente que estamos na época natalícia quando cheguei a Portugal.

Em Outubro, já os canais televisivos portugueses são invadidos por anúncios repetitivos de descontos e promoções natalícias, alusões a brinquedos caros e inconsequentes, que tornam as crianças em máquinas consumistas, incapazes de sentir mais do que o agarrar dos brinquedos que pediram a um tal de pai que não existe, mas oferecidos por pais que se recusam a soltar as amarras a que julgam estar socialmente vinculados. Em Luanda, o mês de Outubro significa a mudança da estação do ano.

Em Portugal, existem iluminações por todas as cidades e mais do que uma árvore de Natal gigante. Em Luanda, existem meia dúzia de iluminações na zona da Mutamba.

Em Lisboa, existem filas intermináveis de carros cujos condutores procuram desesperadamente por um lugar no parque de estacionamento de um centro comercial qualquer. Em Luanda, o trânsito diminui porque milhares de expatriados regressam ao seu país nesta altura.

Em Lisboa, toda a gente deseja um Feliz Natal, recebem-se SMS e e-mails de pessoas com quem não se falou durante o resto do ano mas de quem continuamos amigos porque, quando enviaram mensagens para todos os contactos do telemóvel ou do computador, não foram à procura do nosso nome para o apagar. Em Luanda, por esta altura do ano, a tradicional "gasosa" altera a sua nomenclatura para um directo "comé, não tem boas festas?".

Em Lisboa, e em todo o país, pessoas correm alucinadas e de forma desenfreada à procura de presentes de última hora para oferecerem a outras pessoas a quem não contavam dar mas que entretanto as surpreenderam com um presente e, portanto, criaram para o resto de suas vidas uma obrigação natural de retorquir o gesto. Em Luanda, a existe a tradição de oferecer cabazes de Natal contendo bens essenciais à alimentação das famílias, sendo utilizados, contudo, mais no âmbito empresarial ou profissional. Quem oferece presentes limita-se às pessoas que lhe são realmente próximas e se não oferecer, também não é olhado com desdém porque o Natal é celebrado tendo em conta a religiosidade de quem o celebra, independentemente de colocar, ou não, um menino Jesus à varanda.

Em Lisboa, as pessoas queixam-se do trabalho, das compras, dos presentes, das comidas, da arrumação das casas, de um tal familiar que não era suposto ter vindo comer mas avisou à última da hora que afinal sempre apareceria, para no dia 26 de Dezembro ser tudo igual, à excepção das crianças que dos 6 aos 16 anos jogam nas suas playstations os novos jogos que receberam. Em Luanda, não sei como será o dia 26 de Dezembro, mas estou tentado a apostar que será idêntico ao resto do ano, não por ser igual à capital portuguesa mas porquanto nunca mudou realmente.

Ao povo angolano (tal como ao português) não desejo uma ceia farta, com bacalhau, perú, doces e outras iguarias abundantes mas tão-somente que tenham comida suficiente para matar a fome, nesta época e no resto do ano.
Permitam-me ainda não desejar um "Feliz Natal" mas optar por um menos clássico, mais sentido e bem mais importante "Saúde e Paz" para todos vós.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Na "Tuga"...

Bem sei que estive ausente do blog por quase um mês, ausência essa normalmente motivada pela falta de tempo para escrever. E quando conseguia algum, faltava a motivação ou a disposição. Quando todos estes factores estavam reunidos, faltava a energia. Eléctrica ou corporal. Seja como for, volto às postagens regulares.

Após três meses, regressei a Portugal ou, como commumente se ouve dizer em terras angolanas, regressei à "Tuga". O quente clima africano contrasta com o frio que se faz sentir no Velho Continente. Temperaturas tão baixas não eram registadas no nosso país há muito tempo e devo admitir sentir esse frio de forma especial, o que faz sentido porquanto em Angola até podia chover que continuávamos de manga curta na rua.

Ao lembrar que estive ausente tanto tempo, causa-me estranheza pensar que tudo continua igual. Por vezes, parece que nunca saí. As ruas, os caminhos, o estilo de vida, as pessoas. Nada mudou.
Pensando bem, porque raio haveria de ter mudado o que quer que fosse?