segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Mulheres Zungando Mulheres

Em Luanda não é preciso ir ao mercado, o mercado vem até nós, onde quer que estejamos. Disso exemplo são as "zungueiras": vendedoras ambulantes no verdadeiro sentido da palavra porquanto, de facto, deambulam pela cidade, por vezes parando em zonas estratégicas, e que equilibram, em cima da cabeça e de forma inverosímil, alguidares cheios de fruta, legumes, peixe, pão ou peças de roupa, entre outros produtos.

Além destas, há "zungueiras" que, estrategicamente, se posicionam à entrada de supermercados, aproveitando os preços elevados que estes cobram, para com eles ombrearem em concorrência, no que à venda de frutas e legumes diz respeito.

Sem dúvida alguma que qualquer pessoa fica impressionada ao constatar que, além dos muitos quilogramas de mercadorias que equilibram apenas com a força da espinha dorsal, muitas destas vendedoras levam os seus filhos bebés às costas, presos com panos que os deixam espalmados aos corpos de suas mães e que quase sempre dormem, certamente conduzidos pelo bem-estar proporcionado.

Enchem a cidade de vida, força e determinação:










Há dois dias atrás, saí do supermercado Martal, sito na Maianga, e logo fui invadido por questões vindas de "zungueiras" que se encontravam sentadas do outro lado da estrada, com alguidares a seus pés e que me gritavam coisas como "padrinho, cenoura?", "pepino, paizinho?" - São estes os termos carinhosos pelos quais tratam os homens brancos - E como eu continuasse a olhar para elas a sorrir, vieram atrás de mim duas delas, a tentarem vender os seus produtos. Pousei os sacos no carro e permaneci ao lado deste porque, na realidade, havia coisas que ainda me faltavam. Como já duas vendedoras estavam junto a mim e eu mantinha diálogo com elas, rapidamente apareceram outras, vindas em passo apressado com alguidares na cabeça a perguntar se eu queria bananas, mangas, ananases ou outras delícias da terra.

Fui comprando algumas coisas, regateando aqui e ali, aumentando a mercadoria ou diminuindo o preço, tudo era alvo de negociação que sempre trazia vantagens a ambas as partes.

Entretanto apercebi-me que, das várias vendedoras que por ali se encontravam, uma delas era a chefe. Satisfeito com o meu poder negocial, dirigi-me a ela:

- Então, o que é que tens mais para vender? - Questionei, de forma confiante.
- Tenho cebola, cenoura, pepino, coentro e mulher! - Respondeu a chefe das vendedoras.
- Desculpa, não entendi a última que disseste. - Afirmei, preocupado com a eventualidade de ter ouvido correctamente à primeira.
- Mulher. É esta aqui, por 100 dólares, o padrinho passa o resto do dia com ela. - Esclareceu, ou não.

De imediato apontou para uma outra mulher que ali se encontrava, de estatura baixa, cabelo comprido, pele escura e seios voluptuosos e que não levantava a cabeça, limitava-se a olhar discretamente de baixo para cima, mantendo os olhos a uma curta altura, talvez à altura do seu generoso decote, enquanto esboçava um sorriso tímido e confuso, enquanto via, a não mais de trinta centímetros do seu rosto, o dedo da chefe apontado para ela.

- Obrigado, mas fico-me pelos coentros. - Retorqui, momentos antes de entrar no carro para regressar a casa, enquanto pensava que há coisas que nem sequer deviam ser apontadas, quanto mais vendidas ou regateadas. Melhor ainda, nem sequer deviam ser chamadas de coisas, quanto mais tratadas como tal.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os Musseques

São como um mar imenso de uma tonalidade cinzenta que se perde de vista e nos inquieta o espírito. O cinzento é a cor do cimento das paredes e das chapas de zinco dos telhados. São uma espécie de casas, de pequenas dimensões, de um piso apenas, encostadas umas às outras, que se extendem ininterruptamente por vários hectares de terreno e nos confundem a visão por, a uma certa distância, não ser possível identificá-las singularmente mas apenas como parte de um todo que é indissociável.

Em Portugal existem bairros de lata e, no Brasil, favelas. Mas sem dúvida alguma que nenhum destes se aproximará sequer ao choque que é ver um mar de largas centenas de mínusculas casas construídas à mão, na absoluta ilegalidade, em terrenos ocupados e que albergam milhões de pessoas. São os Musseques de Luanda:




(Início do musseque do Sambizanga, com vendedora na berma da estrada.)



(Da zona de onde tirei esta foto, começa-se a ver o musseque, distante mas impressionante.)



(Muitas casas de musseque estão construídas no cimo de montes. É frequente ver os seus proprietários subirem estes morros para lhes acederem.)



(Tijolos cinzentos, cimento cinzento e telhados cinzentos. E uma loja de fotocópias e fotografias a cores. A construção é a mesma, só mudam as cores. À sua frente, duas "zungueiras" a caminhar.)



(Musseque visto de cima. Na foto não é perfeitamente perceptível o que ali se encontra, mas a olho nú também não o é. Ouvi dizer que são casas onde moram pessoas.)

Conduzia o carro devagar. Da estrada de alcatrão virou à direita, entrando num tão comum piso de terra batida. A ligação era feita por uma tábua de madeira, colocada por cima de uma enorme vala, que ameaçava ceder a qualquer momento. "Avança", ouviu com segurança e assim fez, avançar apenas, jamais com segurança. O caminho por entre as casas era estreito mas perceptível, quer pelas marcas de pneus fixadas na terra, quer pelo facto de ser o único sítio por onde era possível circular de carro. Ali, as pessoas não tinham medo de ser atropeladas, sabiam que não o seriam e portanto, não se desviavam. As crianças eram imensas e brincavam à volta do carro, saltavam, corriam e punham em perigo não as suas vidas mas as daqueles que iam dentro do veículo. Chegados ao destino, saíram um branco e um  negro. Só o carro, brilhante e de alta cilindrada, já tinha sido suficiente para chamar a atenção das pessoas que se encontravam no musseque mas quando aqueles dois homens bem vestidos se fizeram mostrar, todas as atenções se centraram neles, num especialmente.
Ao sair, caminhou lentamente de encontro a umas vendedoras que estavam sentadas naquele que devia ser um pequeno mercado de levante local. Enquanto o homem negro tentava dialogar com senhoras que daquela forma procuravam alcançar o seu sustento e o dos seus, o homem branco só conseguia manter a boca fechada porque havia percebido que de outra forma lhe entrariam moscas lá para dentro, talvez as mesmas moscas que, às dezenas, pousavam nas iguarias expostas para venda e que, e era nisso que o homem branco focava o seu olhar, faziam parte do corpo das crianças que ali se encontravam, vestidas apenas com umas cuecas delicadas e sujas, que em nada protegiam. Abstraindo-se da acesa conversa que ocorria mesmo ao seu lado, concentrou-se inadvertidamente em olhar para uma pequena criança de não mais de cinco anos que ali se encontrava, descalça na terra batida, praticamente nua, suja, manchada, ferida, com dezenas de moscas à sua volta e outras tantas no seu corpo delicado. Impressionou-se com o cenário e a criança, que certamente nunca tinha visto alguém de tez tão clara, também ficou espantada e olhava de forma curiosa, escondendo-se de vez em vez atrás da sua mãe. Tinha o cabelo curto, numa cabeça muito redonda que se destacava do resto do corpo e que conduzia aos seus olhos, enormes, escuros e redondos, e foi com eles que lá foi matando a curiosidade que a consumia e que por fim se desvaneceu com uma ligeira aproximação e com um sorriso tão grande, tão espontâneo e tão inocente, que lhe cobria o rosto e vestia o corpo e que originou que lágrimas de choque e de tristeza subissem aos olhos daquele homem branco que agora vos escreve com a certeza de que há imagens que nunca se esquecem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dia da Independência


Hoje é feriado nacional em Angola: celebra-se o Dia da Independência.

Foi no décimo primeiro dia do décimo primeiro mês do ano de 1975 que Angola, outrora a jóia da coroa do Portugal colonial, se tornou independente e se afirmou como Estado soberano.

Em Portugal, a revolução do 25 de Abril de 1974 abria as portas à descolonização. Teoricamente, a revolução verificada deveu-se, em parte, à luta pela independência das colónias portuguesas. A descolonização foi a grande bandeira erguida pelo MFA e, quer o Partido Comunista, quer o Partido Socialista, se afirmavam a favor desta. Por outro lado, o Presidente da República, António Spínola, ainda procurou desvirtuar o programa do MFA, logrando um entendimento para que Portugal continuasse a ter algum poder nas colónias ultramarinas, mesmo que tivesse de as dotar de certa autonomia. Para Spínola, foram intenções que não passaram disso mesmo e que, sendo-as, duraram pouco tempo.

Commumente se ouvem vozes de portugueses que criticam a revolução dos cravos e a consequente descolonização porque este processo obrigou portugueses caucasianos a regressarem ao território continental e a abandonarem as suas casas e outros bens que tinham conseguido com o esforço do seu trabalho em terras angolanas.

O que é certo é que não se pode idolatrar a liberdade e defender o colonialismo. Se o Abril de 74 ofereceu a liberdade aos europeus de Portugal, seguindo a mesma linha de pensamento, teria obrigatoriamente de oferecer a liberdade aos africanos de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, de São Tomé e da Guiné-Bissau. Não pode existir liberdade sem independência. Não se pode exigir a liberdade para nós próprios e definir que a liberdade dos outros é aquela que nós lhes atribuirmos.

É importante lembrar que a Guerra do Ultramar prolongava-se há vários anos. As perdas, materiais e humanas, de soldados e civis, a saturação da população em geral, a fuga e o medo constantemente presentes nos africanos, qualquer que fosse a raça, não permitiam a prolação de uma guerra que não acabaria enquanto Angola não fosse independente. O argumento de que os militares portugueses tinham, em meados da década de 70, praticamente derrotado os guerrilheiros de libertação angolanos e de que a guerra tinha o seu fim à vista não podem ser invocados.

Em primeiro lugar porque se constatou que, após a entrega do poder aos angolanos, iniciou-se uma guerra civil que durou vinte e sete anos, desta vez pela disputa de poder entre os movimentos de libertação do país (nomeadamente, entre o MPLA, a UNITA, o FNLA e a FLEC, com menor incidência nestes dois últimos).
E em segundo lugar, e de não menor importância, porque estes movimentos não se tratavam apenas de guerrilheiros idealistas de catanas nas mãos. Eram movimentos apoiados pelos Estados Unidos, pela África do Sul (caso da UNITA e da FNLA) e pela URSS (caso do MPLA), organizados, decididos e cruéis, a actuar no ponto alto da Guerra Fria e, se é certo que a guerra começou pela luta pela independência do país, também é certo que Angola, com o seu imenso petróleo, e a existência de ouro, diamantes e de outros minerais e metais, tornavam os apoios ainda mais apetecíveis.

Aquando do fim do Estado Novo em Portugal, apenas existiam duas hipóteses para o destino de Angola e para as demais colónias africanas: Ou procurar um entendimento com as forças de libertação para a entrega do poder, tentando a independência pacífica do país e originando uma eventual fuga de portugueses para a Europa; Ou recusar aquela independência e em vez de originar uma eventual fuga de portugueses, originar o seu massacre certo, cego e sangrento.

É certo que a entrega do poder a um dos movimentos de libertação não foi efectuado de forma totalmente correcta. Mas também é verdade que nestas situações o tempo é crucial, porque a sua falta origina o fim de vidas humanas. E o grande problema não foi ter-se descolonizado o país em 1975. O grande problema iniciou-se cinco séculos antes.

A liberdade, a independência e a auto-determinação dos povos são pilares estruturantes para o desenvolvimento dos mesmos e para a obtenção da paz e do progresso mundiais, algo que foi principiado naquele dia do ano de mil novecentos e setenta e cinco e que, neste país, demorou vinte e sete anos a almejar.

Hoje, celebrou-se o São Martinho em Portugal. Mas houve países onde se celebraram coisas importantes.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Xeque-mate

Na senda da ampliação de conhecimentos no que concerne aos estabelecimentos de diversão nocturna da capital angolana, visitei o Xeque-mate, discoteca que fica por baixo do malfadado Xavaroti.

Quando escrevo que fica por baixo é literalmente. O acesso a esta discoteca, situada numa cave, faz-se através da descida duma escadaria existente logo após a porta de entrada. Esta situação torna o espaço relativamente claustrofóbico, ainda que de forma suportável e apesar do calor que sempre cresce com o passar das horas e com o aumento do número de clientes presentes.

Relativamente ao preço, como tudo aqui, não é barato, são KZ 3000,00 (cerca de € 24,00) de consumo mínimo.

Quanto ao espaço em si, é escuro e abafado e os ritmos tocados são praticamente todos de origem africana, o que me deixa sempre embaraçado quando tenho a infeliz ideia de tentar dar um pézinho de dança, algo que os locais fazem com enorme naturalidade.

Não é certamente dos melhores locais de Luanda para sair à noite. Contudo, o ambiente divertido e descontraído do local e a simpatia de alguns angolanos possuidores de afinidades com Portugal, com quem tive a oportunidade de travar conhecimento, tornaram a experiência bastante positiva.

domingo, 8 de novembro de 2009

Xavaroti

Tenho procurado, de modo paulatino, ir conhecendo os espaços de diversão nocturna existentes em Luanda, o que me permitirá, quando estiver com vontade de descontrair um pouco, ter uma maior liberdade de escolha.

Na semana passada fiquei a conhecer o "Xavaroti", um bar em Luanda, de dimensões reduzidas, apesar dos seus dois andares, e com música ao vivo.

Devo afirmar, desde já, não ter apreciado minimamente a experiência. Trata-se de um espaço muito fechado, extremamente caro (pagam-se KZ 2500,00 de consumo mínimo, isto é, cerca de € 20,00) e de um ambiente estranhamente calmo, até sisudo, mais apropriado para casais cujo entusiasmo libidinoso se limite a uma memória remota.
Mas o pior de tudo são mesmo os empregados: Onde já se viu uma empregada perguntar a cada um dos clientes sentados a uma mesa o que querem tomar, depois levar consigo todos os cartões de consumo e ficar com os mesmos após entregar os pedidos? Bem sabemos que temos de nos habituar às formas de funcionamento locais mas, quando quis sair do bar, antes de outros amigos que ainda ficaram, verifiquei que a empregada registou todo o consumo da mesa num dos cartões e os outros ficaram em branco. Como resultado, instalou-se uma imensa confusão, exaltei-me um pouco, não com o acto em si mas com a estúpida postura dessa "senhora" que continuava a acreditar que o que faz sentido é atribuir um cartão de consumo a cada um dos clientes e depois apontar as bebidas de todos apenas num.

Acabei por demorar mais de trinta minutos para conseguir sair de um bar com lotação para dúzia e meia de pessoas e no qual não voltarei a pôr os pés.