sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pequenas grandes coisas

Existem coisas que, sendo habitualmente simples, se tornam complicadas quando feitas em Luanda.

Descobri que uma delas é cortar o cabelo. Saudosos tempos em que os dilemas da "ida ao baeta" se limitavam a conseguir ter disponível o tempo necessário e a saber qual dos barbeiros habituais não havia subido o preço acima dos dez euros.

No circuito empresarial de Luanda, a apresentação tem um papel importante. Assim, indaguei algumas pessoas conhecidas sobre qual o melhor sítio a visitar para ficar a parecer o Abel Xavier invertido (invertido porque é com o cabelo escuro e a tez clara). A escolha é pertinente: num país onde existem várias doenças e a SIDA é ainda um flagelo, é aconselhável optar por um estabelecimento de confiança. Daí que tenha decidido ir a um hotel de 4 estrelas, o Hotel Alvalade, em Luanda.

O hotel em si tem uma óptima apresentação, assim como o cabeleireiro unissexo que, por fim, lá consegui encontrar. Fiquei tranquilizado e confiante quando vi as instalações, quando reparei que tinha imensa clientela e quando me apercebi do elevado número de portugueses que lá se encontravam a embelezarem-se.

Chegada a minha vez, sentei-me na cadeira e disse com convicção:

- "Máquina três dos lados e atrás e máquina cinco em cima, por favor."

Achei que, se fosse tudo cortado à máquina, a tarefa do barbeiro seria facilitada porque as tesouras requerem maior prática. E também porque são mais perigosas, vá.

Ao início até correu bem, e por início deve entender-se a parte em que passei da cadeira da sala de espera para a cadeira do corte, mas tão-somente esse espaço temporal.
Talvez eu seja demasiado exigente, mas um pente com dentes pontiagudos a ser constantemente cravado na parte superior das orelhas e uma máquina de cortar cabelo especialista em arrancar couro cabeludo, manuseados por um barbeiro que, além de emanar um forte odor a transpiração, acabava por puxar os cabelos até os conseguir arrancar em vez de optar pelo tradicional cortar, estavam a ser demais para mim. Felizmente, só faltava acertar a parte de cima com a máquina e eis que, repentinamente, o barbeiro (se é que assim o posso chamar) pegou numa tesoura e deu dois cortes. Calculei que estivesse a fazer algum acerto que só pudesse ser realizado com este instrumento mas, com as tesouradas seguintes, percebi que ele ia mesmo cortar tudo desta forma. Deixei-me levar pelo cansaço, achando que estava quase a terminar e bastava continuar de dentes cerrados e maos apertadas uma contra a outra para me aguentar.

De seguida, pegou nas lâminas de acertar o corte e lá me foi raspando o pescoço como se por baixo da pele fosse encontrar algum tesouro escondido e, finalmente, terminou o pesadelo. Lá se foi o pente número cinco da máquina de cortar que eu havia pedido e que nunca chegou a ser usado, lá se foram os KZ 2250 (cerca de vinte euros) que paguei para ser torturado e lá se foi o Abel Xavier pelo cabeleireiro fora com menos vinte euros no bolso. Não, esperem, o Abel Xavier não tem um corte aos ziguezagues. Pelo menos, lá se acabaram as dores. Não, esperem, as dores continuaram.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

GMT + 01:00 África Centro Oeste

Finalmente, o fuso horário faz-se sentir. Depois de ter chegado a Angola e ter estado mais de um mês e meio com a hora igual à de Portugal, eis que, agora, me levanto mais cedo do que todos vós para ir trabalhar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Si bô 'squecê me / M ta 'squecê be / Até dia / Qui bô voltà


Bem sei que o título está escrito em crioulo cabo-verdiano, mas é parte da letra de uma música largamente conhecida e verdadeiramente espectacular, também ela de uma cantora cabo-verdiana: Cesária Évora - Sodade.
É África à mesma, faz o efeito.



Ultimamente, muito me questionam se sinto saudades e, apesar da singularidade e ambiguidade do termo, respondo: De quê? Será de casa? A casa não é mais do que um local onde habitualmente se come e se dorme e de onde saem, todos os dias, as formigas mecânicas com olhos ensonados que lá habitam. Para alguém que em oito anos viveu em seis casas diferentes, falar de casa é falar de tijolo. Falar de lar é falar do sítio para onde vão as pessoas idosas.

Questionam se sinto saudades e eu respondo De quê? Será do país? Porque seremos nós obrigados a gostar de um país só porque é o nosso? Porque seremos nós obrigados a sentir saudades do país onde sempre vivemos quando nos afastamos? Não se trata de não gostar do país, porque gosto, trata-se de questionar de que é que posso sentir falta. Da língua, de praia ou de calor não será certamente. O povo actual não é algo que me fascine propriamente, o tempo dos heróis do mar já lá vai. No meu país, as oportunidades de futuro são escassas e o mais que se faz em cultura é prestar homenagens repetitivas a uma cantora que já faleceu.

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Das pessoas? Que pessoas, os amigos? As saudades, a existirem, só surgem quando se verifica uma ausência prolongada, à qual não estamos habituados. Quantas vezes se passa um mês e meio sem que estejamos com amigos, sem que falemos com eles, até? Porque haveremos de sentir saudades de pessoas das quais moramos a meia dúzia de quilómetros e não sabemos notícias suas por períodos prolongados? Não é por estarmos mais longe que as sentiremos, inexiste uma relação causa/efeito entre distância e saudade. Porque haveria de sentir saudades de pessoas que, por vezes, se sentam na nossa mesa mas não estão connosco, apenas no mesmo sítio? Porque haverei de sentir saudades se, antes de partir para outro continente, recebi incontáveis mensagens de apoio, surpresas, carinho e amizade pura? Porque haveria de sentir saudades se isso me foi proporcionado por ter vindo? Toda a felicidade que senti teve causa num passado que se prolonga ao presente. Devo sentir saudades de quando nunca pensei em partir? Ou devo sentir saudades de quando estava para vir e a separação entre os amigos e os outros foi feita? Nesse caso, só será possível senti-las quando estiver em Portugal, em Dezembro, ironicamente na mesma altura em que recebo centenas de mensagens de Natal, as mesmas que continuamente me recuso a enviar, vindas de pessoas cujos números já apaguei.

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Da família? A família não é mais do que um grupo de pessoas que, de facto, não se conhecem realmente. Família não é ser irmão, não é ser pai, não é ser primo. Ser família não é estatuto. Família é fazer uma chamada quando terminamos um exame, é ligar a internet para falar connosco, é mostrar um sorriso especial porque nos é dirigido, é ajudar a ultrapassar dificuldades sem precisar de proferir mais do que duas palavras, talvez nenhuma até. Uma nova separação entre família e parentes fez-se por ter vindo para Angola e, se isso me ajudou a conhecer melhor algumas pessoas e me fez sentir mais próximo delas, apesar de estar mais afastado, porque haveremos de sentir saudades?

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Da namorada? Há sentimentos que são favorecidos com a possibilidade da distância e com o afastamento efectivo, sendo certo que não me refiro à saudade, esta, a existir, é esmagada por outros que se tornam mais fortes. Não desprezo o namoro, mas desprezo a palavra. Namorar não é mais do que um termo vazio que hoje em dia se utiliza de peito cheio para tentar provar uma qualquer correcta inserção numa sociedade que define outros termos ou alternativas como comportamentos desviantes. Diz-se que se ama sem amar, fazem-se juras de amor para toda uma vida que só dura algumas semanas. Namorar não é dizer que se namora, não é andar a pavonear-se de mãos dadas por centros comerciais, não é privar alguém das coisas de que gosta, não é privar-se a si mesmo das coisas de que gosta nem privar os outros de estar consigo. Namorar não é dizer palavras bonitas nem utilizar frases feitas. Namorar não é dizer que se ama, nem fazer coisas para o tentar provar. Namorar é saber que alguém pensa em nós. Namorar é compreender sem olhar, é sentir sem tocar, é reconfortar sem falar. Namorar é amor, namorar é amar. Namorar é caminhar junto, não lado a lado. Namorar é saber que a outra pessoa está connosco, mesmo sem estar, é conseguir comunicar sem que mais ninguém compreenda. Namorar é viajar sem destino. Namorar é saber que, quando nos afastamos, há alguém que espera por nós, demore o tempo que demorar, e isso fazer-nos não mais querer partir.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Constrói-Angola 2009"

Decorreu, de 15 a 19 de Outubro, a 7ª Edição da "Constrói-Angola 2009", a Feira Internacional de Construção, Obras Públicas e Materiais de Angola, co-organizada pela FILDA (Feira Internacional de Luanda). Trata-se de uma exposição onde as empresas expositoras promovem produtos e serviços relativos aos respectivos sectores de actividade.

Ontem tive oportunidade de a visitar, havendo a registar duas curiosidades:

A primeira é respeitante ao horário de funcionamento que, apesar de ser até às 20:00 horas, por volta das 17:00 horas já muitas empresas haviam-se retirado e consigo levado as mercadorias que tinham exposto. Das duas, uma: Ou o estado de saturação e cansaço dos seus responsáveis era tanto, já que o calor esteve abrasador durante o fim-de-semana e estar cinco dias fechado num pavilhão não é propriamente a melhor forma de passar o tempo; ou a Feira correu realmente bem, agendaram diversas reuniões, trocaram imensos contactos e acordarem numerosos negócios, pelo que não lhes adiantava prosseguirem. Talvez tenham sido os dois em simultâneo mas, se em Portugal não existe uma mentalidade de trabalho como noutros países europeus, em Angola é ainda pior.

A segunda tem a ver com o facto de, mesmo tratando-se de uma exposição sobre Construção Civil, existirem imensas pessoas (essencialmente crianças, mas não só), que avançavam de expositor em expositor a pedinchar brindes.
À saída do recinto da Feira, aparecem dezenas de miúdos que nos cercam e nos pedem um qualquer brinde, um qualquer presente, uma qualquer nota, ou simplesmente uma qualquer atenção, por serem constantemente desprezados por quem passa.
Tive a possibilidade de contemplar um gesto solidário: uma pessoa tirou do pescoço uma fita porta-chaves que trazia e, depois de guardar as chaves, ofereceu a fita a uma das crianças que por lá andavam. Vi o sorriso da criança quando a recebeu e vi a satisfação com que a pessoa se afastou, olhei novamente para a criança, mas já não encontrei sorrisos, nem felicidade, nem alegria. Estranhei, olhei melhor, vi angústia,  vi força, vi coragem, vi peserverança, vi luta e vi outras duas crianças a baterem na primeira para lhe roubarem o ceptro daquele reino chamado selva.

domingo, 18 de outubro de 2009

Esterquice no Paraíso

Existem alguns traços fulcrais na determinação de quão civilizada é uma cidade ou um país. Além de ser necessário atender ao sistema político instituído, à economia e a outros factores de desenvolvimento filosófico, científico e tecnológico, mais importante é focar as atenções na sociedade em si, isto é, na formação, no civismo, no respeito e na educação das pessoas.
O lixo que se vê pela cidade não é mais do que a prova de que a civilização ainda não chegou a Angola e, se alguma vez chegou, provavelmente morreu na guerra.

Mesmo assim, devo admitir que, antes de vir, esperava pior. Documentários, relatórios e artigos de opinião definiam Luanda como uma enorme lixeira a céu aberto, algo que, apesar de tudo, não se verifica. E não se pense que li tudo isso, até porque ler faz mal aos olhos, mas alguém me disse que havia uns quaisquer documentários, relatórios e artigos de opinião que falavam de qualquer coisa má sobre Luanda e, para mim, isso é quanto baste. Eu acredito nas pessoas.

As melhorias verificadas devem-se muito ao facto de, ultimamente, estarem a ser efectuados grandes esforços para limpar a cidade. O evento futebolístico CAN 2010, organizado por Angola, está certamente a ser um impulsionador do banho de imersão, com direito a sais de banho, que está a ser dado àquela menina que se lembrou de ir jogar à bola com os rapazes e que se chamada Luanda.







(A maioria das ruas tem imenso lixo espalhado mas parece que sou o único que se importa. As pessoas deitam o lixo para o chão com uma naturalidade imensa, se bem que, em rigor, não existem contentores destinados a esse fim, como em Portugal. Há alguns caixotes amarelos e de pequenas dimensões mas que são visivelmente insuficientes.)







(As obras na baía de Luanda, junto à marginal, materializaram os contentores de lixo que inexistem na cidade e que transformam, quer pela paralização das águas, quer pelo constante arremesso de lixo, a zona mais bonita da capital num autêntico esgoto. Ratazanas incluídas.)











(Estive alguns minutos na zona da última foto e pude contemplar, por mais do que uma vez, alguns residentes chegarem perto daquele monte de lixo, largarem sacos, despejarem caixotes e abandonarem o local calmamente.)


(Numa natureza que oferece tudo, o Homem vende imundice.)

Talvez esteja enganado e a civilização já exista em Luanda. Se existe separação de lixo, não pode estar assim tão atrasada, não é verdade? Desde que por separação de lixo se entenda separar o lixo do que não o é e despejar o primeiro numa esquina qualquer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sangano

No Domingo tive a oportunidade de conhecer outra praia fantástica situada fora do centro urbano de Luanda: Sangano. Para quem vem da capital, fica antes de Cabo Ledo, praia a que já pude fazer referência anteriormente e, apesar de Sangano formar uma baía de menores dimensões e ter uma areal mais pequeno, é igualmente bonita e relaxante:


(As crianças angolanas adoram praia. Mesmo.)



(Desta vez não vi ninguém a correr ao longo do areal)



(Estive algum tempo sentado na esplanada daquele bar de madeira, onde tentei ter uma vista agradável mas só via mar)


(As espreguiçadeiras e os chapeús de sol, ambos feitos de madeira, são uma constante destas praias, claramente vocacionadas para os estrangeiros. Já não se arranjam virgens, isto é, sítios virgens da mão do Homem)


(Esta era a vista do sítio onde almocei. Foi maravilhoso ver os pescadores chegarem à praia em barcos deste género, a remos, carregados de lagostas)


Por cá, tento apreender os hábitos e costumes locais portanto, ao almoço, tive de provar as especialidades da casa: Lagosta ao alho e arroz de lagosta.
Lá fiz esse esforço e, para meu enorme espanto, são ambos saborosíssimos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

C.S.I. Luanda

No passado fim-de-semana estive presente numa situação assustadoramente engraçada que se passou numa praia, aqui em Luanda. Numa altura em que estava a dormitar para repor as energias e melhorar o meu bronze com o intuito de passar mais despercebido entre os locais, eis que surge um 4x4 da polícia. Avançam pelo areal com o veículo e param-no junto a umas rochas onde estavam dois indivíduos encostados.
Sai um par de polícias (também aqui andam aos pares) e encaminham-se para o local onde se encontravam os sujeitos. Caminham descontraídos, começam a subir umas rochas para se aproximarem o melhor possível e eis que, quando finalmente estão quase a chegar, certamente para terem um diálogo interessantíssimo sobre futebol, carros, ferramentas ou qualquer outra coisa que domine as conversas do sexo masculino, inesperadamente, um dos sujeitos começa a saltar de rocha em rocha. Não, não se estava a tentar gabar de nenhuma proeza física mas conseguiu, em dois saltos, pôr-se na areia, iniciando de seguida uma frenética corrida, com tanto afinco como se a sua liberdade dependesse disso (sempre tive uma fértil imaginação).
Os agentes permaneceram parados a olhar para ele, o companheiro de armas (mas não de crime) do fugitivo, permaneceu parado e toda uma praia ficou imóvel e quase silenciosa a assistir à cena. Escrevo quase silenciosa porque o motor do 4x4 continuou a trabalhar.
E durante aqueles 50 segundos assistimos a um constante bater de calcanhares nos glúteos, numa corrida de resistência e de velocidade em simultâneo, numa corrida pela sobrevivência. E não se pense que, para fugir, o sujeito correu da praia para a estrada, nada disso. Optou por correr pelo areal fora até desaparecer de vista.
Virei-me e retomei a minha sesta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Legalista, Moralista e de Bons Costumes

Angola, do ponto de vista arquitectónico, não tem grandes motivos de interesse. Na capital, a esmagadora maioria dos edifícios são antigos, do tempo colonial, a precisar de uma nova restauração ou de uma primeira. Além destes, existem outros, construídos à margem da legalidade: cimento, areia e tijolo empilhados de forma discricionária num qualquer terreno ocupado para criar um lar para uma ou mais famílias.

Mesmo assim, existem alguns edifícios dignos de registo. Um deles é o do banco central, o Banco Nacional de Angola (BNA), sito em plena Avenida 4 de Fevereiro, na marginal. Uma autêntica beleza:







Outro edifício digno de interesse é o do Governo Provincial de Luanda. Todavia, não é fácil fotografá-lo. Há tempos tentei fazê-lo e apareceu logo um segurança a dizer que para o efectuar, por ser um edifício oficial do Estado, era necessário requerer, previamente, uma autorização ao próprio Governo Provincial.
Naquela altura, não tinha autorização para tirar a recordação. Pedi desculpa pelo meu atrevimento, afirmei que iria requerer a devida autorização, garanti ter apagado a foto que entretanto havia tirado, prometi-lhe uma gasosa e fui embora.
Agora, imaginem que fui ao Governo Provincial de Luanda passado uns dias, imaginem que fiquei horas esquecidas na fila para pedir um qualquer papel absurdo, imaginem que fiquei horas noutra fila para entregar o documento, imaginem que fiquei horas noutra fila porque me tinha enganado na fila anterior, imaginem que esperei uns dias pelo deferimento do requerimento, imaginem que paguei uma gasosa para acelerarem o processo, imaginem que me voltei a dirigir aos serviços provinciais, imaginem que voltei a aguardar horas numa fila para levantar um qualquer suposto documento ridículo, imaginem que voltei ao local para fotografar, imaginem que mostrei o documento a todos os presentes para não ser alvejado por um tiro de uma qualquer caçadeira a cumprir deveres idiotas do Estado e, por fim, imaginem que tirei uma foto dentro da legalidade:





Curiosamente, o edifício do Banco Nacional e o edifício do Governo Provincial têm a mesma cor. De certeza que é por razões de interesse económico e com isto quero apenas dizer que certamente sobrou tinta quando pintaram um e, para economizar, usaram-na também para pintar o outro edifício.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Números a mais, ponteiros a menos




Setecentas e vinte. Esta quantidade, se expressa em horas, reflecte o período temporal da minha estadia em Luanda.
Por aqui, a mão de ferro com que a cidade me guia força-me a negar a contagem dos dias e a repudiar o cálculo do tempo que, afinal, inexiste. A percepção do dia-a-dia é-nos adulterada de uma forma violenta: num paradoxo esquivo mas racional, os dias são intensos e dilatados, pequenos e completos, escassos e demorados, cansativos e prazeirosos. Os dias são a noite da noite que não a é.
Decorrida que estava uma semana de estadia em Angola, sentia jamais ter conhecido outros lugares, outras cores, outros cheiros ou outros sabores.
Hoje, não me é possível afirmar estar cá há um mês. A minha presença neste país perfaz setecentas e vinte. Horas no somar, semanas no sentir.


domingo, 4 de outubro de 2009

"Quem canta, seus vizinhos espanta"

Não tenho a mais pequena dúvida quando afirmo que o povo africano é espiritual e religioso por natureza. Do feedback que tenho recebido dos angolanos a quem já tive oportunidade de questionar, apercebo-me de que são, na sua grande maioria, católicos devotos.

Nesse caso, interrogo: Se a Igreja Católica definiu o Domingo como o dia de descanso, porque raio é que são 23:00 da noite, amanhã é dia de trabalho e se ouve música a tocar na rua e pessoas a cantar?

É impressionante como esta gente passou o fim-de-semana todo a comemorar qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o quê, nem eles próprios, e continuam pela noite dentro.

Neste caso, lá se vão o respeito e o amor ao próximo que tanto apregoam, olvidando serem o tal povo religioso que mencionei. Mas também referi que são espirituais e isso certamente engloba fazerem uma dança da chuva colectiva no meio da estrada, às tantas da noite, como se não houvesse amanhã.

sábado, 3 de outubro de 2009

O Kwanza



Uma das coisas que maior curiosidade suscita quando estamos num país estrangeiro é a moeda local. Em Angola, a moeda oficial é o Kwanza (em abreviado: AKZ ou KZ), por referência ao maior rio do país, que tem o mesmo nome.

Contudo, apesar de o Kwanza ser a moeda local, neste local não existem moedas. E não há confusão, a circulação da divisa faz-se, em exclusivo, através de notas. Ainda são fabricadas moedas mas em número tão reduzido e de valores tão baixos que as tornam inexistentes na prática.

O Kwanza é uma moeda muito fraca. Tanto, que no ano de 1999 teve de ser reajustado numa proporção de 1 para 1000, isto é, o Kwanza que anteriormente valia 1000 passou a valer 1, o que é demonstrativo de quão baixo era o seu valor.

Mesmo assim, o Kwanza (actual) continua a ser fraco: 1,00 € (um euro) equivale a, aproximadamente, 114,00 KZ (cento e catorze Kwanzas). Ou seja, os cavalheiros que quiserem impressionar uma senhora podem trazê-la a jantar fora em Luanda e mostrar que pagaram qualquer coisa como 5000,00 KZ (cinco mil Kwanzas)!! Claro que elas não precisam saber que, de facto, pagaram pouco mais de 40,00 € (quarenta euros) pela jantarada. E a sobremesa vem depois, naturalmente.

Para quem viu as 14 notas da foto mais acima, deve pensar que estou rico. E acertou! Estou rico de saúde e bem-estar, mas é só. No que toca a dinheiro, estão ali qualquer coisa como 1,85 € (um euro e oitenta e cinco cêntimos). Basicamente, ando com a carteira cheia de notas e não tenho dinheiro para comprar uma sopa.

As notas são todas parecidas, de um lado têm uma paisagem do país e de outro têm a imagem de José Eduardo dos Santos (Presidente da República desde 1979 ) e de António Agostinho Neto (considerado o herói da independência, foi o primeiro Presidente da República do país, de 1975 a 1979).

Eis algumas notas:



Chamo a atenção para a última nota, de 5 KZ (cinco Kwanzas), que vale essa pequena fortuna de 0,04 € (quatro cêntimos). E como é útil esta nota: ideal para dar aos arrumadores de carros, sendo que, por vezes, até lhes dou duas! Mas só quando estou um mãos-largas, coisa que não acontece todos os dias.