quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A acompanhar Portugal...

Na política:

O Partido Socialista venceu as eleições legislativas, com José Sócrates a demonstrar uma enorme capacidade de trabalho, de liderança e sentido de responsabilidade. Foi a vitória do empenho, da vontade em continuar o desenvolvimento do país, da força e da perseverança contra a política do bota-abaixo, da falta de esperança, dos casos e da falta de ideias;

O PSD anuncia que ganhou as eleições parcialmente e que o PS as perdeu;

A CDU anuncia que venceu as eleições;

O BE anuncia que venceu as eleições;

O líder do PP recusa-se a discursar antes do PS e guarda-se para o final da noite, para anunciar a sua vitória nas eleições;

Manuela Ferreira Leite só conseguiu explicar que todas as explicações que deveria dar estavam num programa eleitoral que pouco explicava;

Cavaco Silva esteve imenso tempo sem dizer nada e entretanto falou para não dizer nada;

Paulo Portas, com um sorriso maroto, piscou o olho a Ricardo Araújo Pereira;

O Bloco de Esquerda foi perdendo fôlego e Francisco Louçã mostrou o seu verdadeiro valor (ou a falta dele), sendo certo que, a partir daqui, será sempre a descer nos resultados;


Nos casos:

Membros da Casa Civil da Presidência da República lançam boatos sobre alegadas escutas. Cavaco Silva diz não saber de nada, o que é estranho, visto ser ele o Presidente da República.
Discursa, acusando o Partido Socialista de manipular o caso das escutas telefónicas em seu proveito, o que faz todo o sentido, já que o caso tem a ver com acusações graves de que seria o Partido Socialista que estaria por detrás dessas escutas. Só Cavaco Silva é que percebeu o esquema do partido: inventa-se que existe espionagem à Presidência da República feita pelo próprio Partido Socialista, deita-se abaixo a reputação desse partido e das pessoas que dele fazem parte, sem qualquer facto indiciário ou qualquer prova, baseando-se apenas no comentário de um membro da Casa Civil, faz-se uma campanha eleitoral destes casos contra esse mesmo partido e, pelos vistos, esse foi o partido que aproveitou isso em seu favor. Genial!
Prossegue, referindo que descobriu, em Agosto, que o sistema informático da Presidência da República poderia ter sido violado e que, por isso, contactou especialistas no final de Setembro, tendo ficado a saber que o sistema tem vulnerabilidades.
Termina o discurso, argumentando que não cede a pressões. Depois diz que foi pressionado pelo PS. Remata a dizer que não queria, mas foi obrigado a falar ao país.  É um poeta, quando está calado;

Sâo efectuadas buscas em diversos escritórios de advogados, por causa da compra, pelo Estado Português, de submarinos no tempo em que Paulo Portas era Ministro da Defesa. Levantam-se suspeitas de "corrupção", "peculato", "branqueamento de capitais" e coisas afins. Aparecem na televisão imagens de Paulo Portas em 2003 a piscar o olho a um marinheiro.


No futebol:

O Benfica goleou o Leixões por 5-0;

O Sporting queixa-se da arbitragem antes do jogo com o F. C. Porto, perde o derby e queixa-se da arbitragem depois do jogo com o F. C. Porto. Paulo Bento arriscou-se a um castigo que poderia ir de 2 meses a 2 anos e foi suspenso por 12 dias.


Na sociedade:

Todos os dias aparecem cerca de 15 ou 2065 novos casos de gripe A em Portugal. Os irresponsáveis dos directores das escolas não encerram os estabelecimentos de ensino porque há cinco crianças e meia com gripe. Os insensíveis dos espanhóis passam a fronteira para nos virem roubar tamiflú, fazendo com que as nossas criancinhas não tenham oportunidade de se salvarem.



Enfim. Em Portugal, tudo normal.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Marginal da cidade

Lamento, mas o título não se refere à minha pessoa. Refere-se, isso sim, à Avenida 4 de Fevereiro em Luanda, mais conhecida por "marginal", certamente a zona urbana mais bonita da cidade e, porventura, de toda a Angola.

Ontem, domingo, encorajado pelo dia fantástico que anunciou o início de uma temporada solarenga e de quentes temperaturas, decidi conhecer melhor a zona onde habito. E para conhecer realmente a sociedade onde estamos inseridos não há melhor do que andar a pé.

Sempre adorei conduzir sem destino, andar sem destino e viajar sem destino, referindo-me ao vocábulo no sentido de "direcção". E ainda de viver sem destino, referindo-me ao vocábulo no sentido de "fatalidade" em que não acredito.

Também não acredito em deixar de sentir, deixar de fazer ou deixar de viver, por medo ou insegurança. Se assim fosse, não teria vindo para Angola. Se assim fosse, não teria saído sozinho, a vaguear loucamente pelas ruas de Luanda. T-shirt vestida, ténis calçados, peito cheio, passo firme, nariz empinado, braços abertos e movimento gingão. Típico, dirão alguns. Útil, diria eu.

Ontem, o destino não me levou a lado algum. Mas fui levado com destino à marginal.


(Marginal ao final da tarde, no sentido do Porto de Luanda):


(A marginal está a ser remodelada, incluindo o paredão. Toneladas de areia foram já descarregadas em cima da água):


(O que fez com que, junto ao Porto de Luanda, ficasse uma espécie de praia. Apesar do cheiro nauseabundo a maré vazia e da água com qualidade tipo rio Tejo no Cais do Sodré, havia imensas pessoas a tomar banho, outras a apanhar sol e algumas apenas a pescar):


(Agora a caminhar em sentido inverso, com o Porto de Luanda para trás):


(O Sol estava quase tão bonito como o seu reflexo na água):


(Ao final dos dias de semana é frequente ver pessoas a fazer jogging nesta zona. Se cá vierem, é possível encontrarem-me... sentado numa esplanada do outro lado da estrada):
 

Estreias...

Sexta-feira passada. Final do dia de trabalho. Início do dia do homem.

Depois de afundar as Oreo num copo de leite, conforme havia prometido, decidi efectuar algo ainda mais másculo. E o que pode haver de mais caracterizador da posição firme do macho dominante do que ir às compras? Nada. Então fui às compras.

Como era o seu dia, o motorista da empresa já tinha terminado o serviço e ido festejar sem dizer nada a ninguém. E isso inclui a esposa, claro.

Desse modo, decidi iniciar-me nessa grande aventura rowlingiana que é conduzir numa cidade como Luanda. O facto de ser hora de ponta, de nunca ter conduzido em Angola, de nunca ter conduzido um jipe, de nunca ter conduzido um carro automático, de nunca ter conduzido um veículo tão grande (6 metros de comprimento e 2 de largura) e de ser perigoso conduzir em Luanda, deveriam ter sido motivos suficientes para me impedir. Mas não foram. Eu precisava mesmo daqueles quinhentos gramas de bróculos que iriam tornar delicioso o meu jantar. Portanto prossegui.

Devo dizer que a viagem até correu bem, depois dos 15 minutos iniciais para descobrir como arrancar. Mas consegui, iniciando-me no mundo dos automobilistas em Luanda. E parei 2 minutos depois, com o trânsito. Estradas esburacadas, cruzamentos com sinalização a menos, cruzamentos com sinalização a mais, centenas de veículos, ultrapassagens por ambos os lados, candongueiros desenfreados, condutores com falta de tempo e de civismo, buzinadelas constantes e vendedores ambulantes a ziguezaguear por entre os carros fazem com que conduzir em Luanda seja qualquer coisa como jogar golfe completamente despido no quintal duma família de canibais esfomeados da Austrália. E para quem não entendeu o perigo subjacente: eu nunca joguei golfe!

Enquanto conduzia, consegui tirar uma foto dum Ferrari que avançava à minha frente:



sábado, 26 de setembro de 2009

Atracção...ou desocupação?

Não é que estava agora a jogar Fifa para descontrair um pouco, sofro um golo (não se preocupem porque estava a vencer 2-0 na altura) e ouço vindo da rua alguém gritar "Golo!".

Quando olho pela janela reparo que estão duas personagens especadas na varanda em frente à minha janela, a assistir calmamente ao jogo que estava a decorrer.

E o pior de tudo é que estavam a torcer pelo computador!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Dia do homem

Hoje é dia do homem.  Hoje e todas as sextas-feiras neste belo país à beira-mar plantando (sim, Angola também está à beira-mar plantada, tal como dezenas de outros países ao redor do globo). O dia do homem não é mais do que uma desculpa para a partir das 13 horas se estar de fim-de-semana. Os homens saem mais cedo do trabalho para irem descontrair e beberem qualquer coisa, que é como quem diz uns litros de bebidas etilizadas.

Como ainda sou novo nestas andanças, bebi água ao almoço e marquei duas reuniões para o período da tarde, tendo inclusive recebido o seguinte elogio, vindo de um cliente: "obrigado pela sua consideração de me atender no dia do homem". "Estás cá com uma narsa", pensei. E depois o cliente tropeçou ao subir o último degrau da escadaria para entrar no escritório, batendo com a cabeça numa esquina e rebolando, depois, pelas escadas abaixo até permanecer redondo no chão. Ou então isto é tudo mentira e estou a inventar desde a parte da queda só porque é dia do homem e posso fazer o que me apetecer. E agora, porque quero, posso e mando, vou ali vestir o meu pijaminha e afundar umas Oreo num copo de leite. À homem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Dicionário Angola - Portugal

O português, sendo a língua oficial de Angola, é falada por todos os nacionais. Todavia, existem outras línguas e dialectos locais que também fazem parte da cultura angolana. Um dos mais comuns é o kimbundo. O kikongo também é bastante falado, apesar de ser originário do Congo [O Congo e a República Democrática do Congo norteiam Angola, apesar de apenas este último fazer fronteira]. Além disso, são inventadas novas palavras frequentemente. Um calão, que se espalha facilmente pelo país e além-mares. Portugal incluído.

Como sou um tipo porreiro, além de imensamente atraente, vou dar-vos uma lição de dialectos locais. Não me perguntem se é kimbundo, kikongo ou calão porque não faço ideia.

Imaginem dois amigos a conversar.

Versão Angolana:

"- Oxi camene! Já sabes se vens com a tua dama no machimbombo e se nos encontramos junto à zungueira para comprarmos o mata-bicho?
- Ainda.
- Qual é a maca?
- A dama tá incomodada e só pode ir se o machimbombo não fizer mbaias.
- Não tem maca, tás armado em pula? Aquilo não é uma candonga!
- Ya. m'baji, Xirimbimbi"

Versão Portuguesa:

"- Bom dia! Já sabes se vens com a tua namorada no autocarro e se nos encontramos junto à vendedora ambulante para comprarmos o pequeno-almoço?
- Ainda não.
- Qual é o problema?
- A minha namorada está doente e só pode ir se o autocarro não fizer manobras perigosas.
- Não há problema, estás armado em branco? Aquilo não é uma candonga!
- Ya. Até amanhã, Xirimbimbi "

Palavras e seu significado:

- oxi camene: bom dia [kikongo]
- dama: namorada
- machimbombo: autocarro
- zungueira: vendedora ambulante
- mata-bicho: pequeno-almoço
- ainda: ainda não
- maca: problema
- incomodado/a: doente
- mbaia: manobra perigosa
- pula: branco (com conotação ofensiva, normalmente)
- candonga: carrinhas azuis e brancas sobre as quais já tive oportunidade de escrever
- ya: sim [adivinhem de onde derivou esta tão usada palavra em Portugal? Alemanha? Errado!]
- m'baji: até amanha [kikongo]
- Xirimbimbi: Não tem significado. Mas é um apelido extremamente engraçado.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Duas semanas

Com duas semanas de Angola:

- Não fui assaltado;
- Não fiquei doente;
- Não vi girafas;
- Não vi elefantes;
- Não vi crocodilos;
- Não paguei gasosas;
- Não fui atacado por tubarões na praia;
- Não fui atacado por tubarões em lado nenhum;
- Vi farmácias;
- Vi ambulâncias (na verdade foi só uma);
- Vi restaurantes (alguns caros, outros mais caros ainda);
- Vi supermercados;
- Vi trânsito;
- Vi horas de ponta;
- Estive no trânsito em horas de ponta;
- Tenho uma máquina de café;
- Tenho internet;
- Tenho empregadas que fazem a comida;
- Tenho empregadas que tratam da roupa;
- Tenho empregadas que faltam de vez em quando;
- Tenho televisão;
- Tenho música do vizinho do lado;
- Tenho água corrente;
- Não tenho pressão na água corrente;
- Tenho um blog;
- Tenho electricidade, às vezes;
- Não tenho televisão quando falta a electricidade. Nem internet. Nem blog. Nem água quente. Nem forno eléctrico. Nem máquina de lavar roupa. Nem máquina de café. Nem paciência.
- Tenho sobrevivido.

domingo, 20 de setembro de 2009

Noite de Luanda

Já mo tinham dito mas admito ter acolhido tais comentários com cepticismo.

Todavia, tenho de dar a mão à palmatória: a noite de Luanda é muito boa! Estive ontem no Chill Out, uma discoteca ampla, ao ar livre e situada à beira-mar.

Os ritmos tocados eram à base de música "dance", com alguns remixes de outros géneros musicais mas produzidos com qualidade. Apesar de o espaço se encontrar lotado, dava perfeitamente para dar um pézinho de dança.

O ambiente esteve impecável, sem provocações nem intolerâncias, havendo, pelo contrário, muita amizade e camaradagem. E, diga-se, alguma tensão sexual no ar.

Por momentos, senti-me na melhor das noites Lisboetas.

Ao mais alto nível!




Foto tirada do site do Chill Out:

http://www.chillout-luanda.com/home.html

sábado, 19 de setembro de 2009

Candongueiros

Em Luanda, os transportes públicos são praticamente inexistentes. Isso explica o facto de o trânsito ser caótico. Numa cidade pequena em termos geográficos, não é fácil suportar a deslocação constante dos seus mais de 5 milhões de habitantes.

Existem paragens de autocarros. Não existem é autocarros, o que faz todo o sentido.

Daí que o único meio de transporte, para aqueles que não têm automóvel, seja a utilização das carrinhas azuis de 9 lugares que em Luanda se contam aos milhares. São normalmente da marca Toyota, modelo Hiace. Uma espécie de Mercedes 180, modelo Africano.

Os seus proprietários são os chamados candongueiros e conduzem desenfreadamente pelas ruas de Luanda, arriscando manobras perigosas e pintando os tons da cidade de um azul claro.

Param nas paragens de autocarro, devidamente assinaladas, e aguardam pelos passageiros. Permanecem com a porta aberta, empoleirados na carrinha a gritar algo tipo "mais dois, mais dois!!", referindo a quantidade de lugares ainda disponíveis, apesar de já estarem  qualquer coisa como 15 pessoas lá dentro:








Estas carrinhas, cujos conta-quilómetros já deram algumas voltas, são uma verdadeira beleza mecânica. Todas idênticas mas identificáveis. Cada uma alterada conforme os gostos do candongueiro. São o tunning de Luanda: diferem nas jantes, nos ailerons e noutros adereços. Curioso é o facto de a maioria ter, no vidro de trás, frases ou palavras que as identificam. Normalmente são o nome de família ou do grupo a que pertencem ou, então, vocabulário cujo objectivo é impor respeito ou medo. Não sei se aos outros automobilistas, se aos próprios passageiros.

Como esta, que tem o nome "STORM" (tempestade):




Mas os passageiros não precisam ter medo da tempestade. Dentro da carrinha não chove. Afinal de contas, estamos na época seca.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Moamba, Cervejas, Lagostas e Gasosas

Dedico o texto de hoje àquela que é uma das mais caracterizadoras e antigas práticas institucionalizada em Angola após a independência.


Falo, claro está, da "gasosa". E não me refiro a qualquer refrigerante, dissipando desde já as eventuais dúvidas dos leitores assíduos deste blog (que são para aí 90 ou 2).

A "gasosa", como aqui é conhecida, traduz-se na prática reiterada acompanhada da convicção de obrigatoriedade de ofertar determinado numerário quando somos agracejados pela contemplação de exarcebada e insigne prestação dos Excelentíssimos Senhores Agentes da Autoridade no desempenho das respectivas funções.

Não sei de que outra forma poderia definir esta prática. Ah, não sei se ajuda, mas em Portugal chama-se "suborno".

Em Angola a corrupção é elevada a um outro patamar. Digna de filmes hollywoodescos mas sem as pipocas. Existe nos cargos públicos e em qualquer repartição ou instituição do Estado.

Mas se há área onde a prática da "gasosa" é evidente é na polícia. Estes senhores, que vestem de azul, estão constantemente à procura de resolver as suas vidinhas complicando as dos demais. Quero com isto dizer que com a mínima situação (que eles criam nos seus imaginários), nos ameaçam de passar multas, de irmos para a sua unidade operativa, de sermos presos e até de sermos recambiados para Portugal.

Fui adiando a escrita sobre esta prática à espera de ter um caso concreto para relatar. Já me contaram diversas histórias, mas esta foi na minha presença.

Imaginem um semáforo, numa das maiores avenidas de Luanda. Nesse semáforo, existe uma passadeira. Quando o sinal fica vermelho para o trânsito automóvel, fica verde para os peões.

O semáforo encontrava-se vermelho e o carro havia parado. Acontece que, apesar de não estarmos em cima da passadeira, estávamos parcialmente parados em cima duma das marcas que indicam o seu começo.

Esta imagem não é de Luanda mas creio que ajuda a visualizar o cenário. Imaginem um carro parado na marca vermelha:





(Não me pareceu apropriado estar a tirar uma foto enquanto o polícia mandava vir)

Estávamos parados e aparece um polícia do lado do condutor. Permanece de pé a olhar para dentro do carro sem gesticular ou dizer o que quer que fosse. Abre-se o vidro.


- "A sua cartá di condução?" - solicitou o respeitável agente.
- "Aqui tem!" - retorquiu o incauto condutor.
- "O senhori X. está paradu em cimá duma passádeirá" - avisou o profissional administrador da justiça.
- "Lamento senhor agente, mas a passadeira está ali à frente." - respondeu o irresponsável automobilista.
- "O Senhori X. está atrapalhari o circulação dos pessoa."

(nesta altura, eu, que não era o condutor mas estava dentro do carro, pensei que não existiam peões nenhuns naquele momento, além de que, se os houvesse, tinham espaço suficiente para atravessarem em segurança. Pensei ainda que o semáforo só esteve vermelho 10 segundos e quem estava a atrapalhar o trânsito era o polícia, uma vez que o semáforo já tinha sinal verde há algum tempo sem que pudéssemos arrancar e os carros de trás buzinavam veementemente).


- "Pari os veículo ali à frenti para os eu passari as rispectiva multa, fáfávori" - ordenou o diligente funcionário estatal.
- "Com certeza!" - confirmou o negligente proprietário do veículo.


Assim que arrancámos, acto contínuo, tirámos as notas dos bolsos, deixando de fora algumas de valor mais baixo e escondemos as restantes. Parámos e aguardámos pelo polícia, para lhe pagarmos o almoço.

Como o polícia nunca mais viesse, um dos presentes no veículo (que não o condutor) saiu e foi falar com ele. Sendo angolano, ainda que caucasiano, disse algo tipo:

- "Comé? Vamos resolver isto?" - Questionou.
- "Quem divia apareceri era o seu condutori." - Respondeu o eficaz agente da autoridade.
- "Ele não pode aparecer porque está parado na berma da estrada. Comé, resolvemos isto, ya?" - Repetiu o angolano.
- "Entregui isto ao seu condutori." - Solicitou o Einstein dos fardamentos azuis.

E foi mais ou menos nessa altura que o agente entregou, não a multa que havia ameçeado passar, mas antes a carta de condução que havia solicitado. E também foi mais ou menos por essa altura que poupámos uns quantos dólares que já havíamos dado por perdidos. Coincidência?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cabo Ledo

Na minha primeira ida à praia em terras angolanas tive o privilégio de ficar a conhecer Cabo Ledo.

Situa-se a cerca de 125 kms do centro de Luanda. É verdade que para ir à praia não era necessário percorrer tantos quilómetros mas também é verdade que este lugar é quase paradisíaco e o facto de estar isolado do centro urbano torna-o ainda mais apetecível. Além disso, a fama de Cabo Ledo só é ultrapassada pela fama das suas lagostas.


A viagem não é fácil, quase sempre em estradas secundárias (imaginem um IC sem separador central e com 20 metros de largura. Boa. Agora tirem-lhe 12 metros de largura).


Pelo caminho somos brindados com paisagens de terra batida, árvores quase despidas e dezenas de pessoas. Pessoas que se colocam estrategicamente na berma da estrada, munidos de uma pequena banca feita de madeira. Nessa banca encontramos de tudo (tabaco, fruta, peixe, artesanato, água, gasolina). Alguns angolanos, menos afortunados, não têm banca e seguram nos objectos com as mãos, levantando-os à medida que os veículos passam por eles.

Tirando a côr dos veículos, a paisagem pinta-se em tons de um castanho-acinzentado:


Justifico a má qualidade da foto pelo facto de terem de ser tiradas no interior da viatura em andamento e de vidros fechados.

Para chegar ao destino é necessário atravessar a ponte sobre o rio Kwanza (maior rio de Angola e que dá nome à moeda local):



Vários quilómetros adiante o alcatroado termina. Vira-se à direita e circula-se em terra, literalmente. Circula quem tiver jipe, obviamente. Algumas dezenas de metros de altos e baixos e chegamos a Cabo Ledo.

Ei-la:

(no período da manhã, quase deserta)
(ainda de manhã, com criança a brincar à beira-mar)
(o tempo melhorou da parte da tarde)
(são vários os chapéus de sol)


Tempo: Nublado de manhã, com algumas abertas da parte da tarde.
Temperatura ambiente: Amena.
Vento: Fraco ou inexistente.
Temperatura da água do mar: Agradável para quem está habituado às praias portuguesas, fria para quem é frequentador assíduo das praias africanas.

Se forem todas assim, auguro-me a mim mesmo vários bons fins-de-semana num futuro. Próximo, claro.

domingo, 13 de setembro de 2009

A vida no mundo dos negócios...

...é difícil!

Adorava escrever-vos algo mais elaborado. Mas este ritmo de Luanda está a dar cabo de mim e a ida de hoje à praia arrasou-me. Depois posto umas fotos da praia, se não estiver demasiado cansado.

Por enquanto deixo apenas umas fotos diversas, para perceberem como a vida do Homem é dura.

Cerveja angolana Nocal:
Cerveja angolana Cuca (possivelmente a marca mais conceituada):
Uns digestivozinhos:
O primeiro prato do almoço de hoje:
A vista de hoje enquanto almoçava:
Agora perdoem-me, mas já passa das dez e meia da noite e vou-me deitar.

sábado, 12 de setembro de 2009

Ainda bem que...

...fiz uma sesta hoje à tarde.

Descobri que, afinal, o Sábado não é só dia de ir ao supermercado. É também dia de festa. Há aqui uma festa numa casa perto e a música estende-se não só por toda a rua mas por todas as casas. Incluindo aquela onde estou.

Se há coisa que sempre me fascinou nos povos africanos foi a sua capacidade de sorrirem. Via na televisão e nos jornais relatos de pobreza, de doenças, de fome, de guerra, de miséria extrema e ficava impressionado. Mas havia algo que me impressionava ainda mais e que era a capacidade de esses seres humanos, mesmo com tais adversidades, sérias e reais, terem uma enorme capacidade de desenvolverem danças, de organizarem festas, de cumprirem com os seus rituais, de protegerem a sua família e de oferecerem sorrisos simples e espontâneos a cada momento de suas vidas.

Para quem nada tem, ouvir uma música, estar com a família e com os amigos e dar um pézinho de dança é, afinal de contas, ter tudo o que é necessário para se ser feliz.

E, apesar de não me deixarem dormir, os foliões da casa do lado tornam-me feliz também. Feliz por me fazerem (re)aprender valores que sempre procurei incutir a mim mesmo e esquecer das vezes que, em Portugal, estive de mau humor porque o telemóvel avariou ou porque o Benfica perdeu.

Se ao menos nessas alturas tivesse tido um vizinho que pusesse música a tocar...

Como é viver na cidade mais cara do mundo?


Segundo este artigo, Luanda é a cidade mais cara do mundo para estrangeiros.

Ao fim-de-semana vai-se ao supermercado. Há cá grandes supermercados, parecidos aos de Portugal. Existe até um Jumbo (sim, o mesmo Jumbo). Agora imaginem um Pingo Doce, aquele onde fui é desse género. Só para terem uma ideia:



Alguns valores ali praticados:
- Pantene Pro-V Anti-caspa, 200 ml - 546.50 AOK = 4.88 €
- Compal Néctar de Pêssego, 1 litro - 290,70 AOK = 2.59 €
- 1 kg cenouras - 374.30 AOK = 3.34 €
- 1 litro de leite meio gordo Agros - 211.70 AOK = 1.89 €
- 6 Ovos - 230.80 AOK = 2.06 €

Se quisermos fazer uma extravagância, como ir jantar fora ou comprar algo não tão básico, os valores começam a subir.

Numa churrasqueira:
- 2 frangos assados, com oferta de pão - 2700 AOK = 24.10 €

Conclusão: Caro. Mas não é por isto que, para mim, Luanda é a cidade mais cara do mundo.

 É-a porque há que atender aos salários médios dos trabalhadores do país, referindo-se aos nacionais angolanos e não apenas aos estrangeiros, como faz aquele artigo.
E é-a, principalmente, por culpa da especulação imobiliária, apesar de o estudo também não englobar esta vertente. O arrendamento de um pequeno apartamento custa vários milhares de dólares ao mês.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Não há sol em África?

Não deixa de ser curioso o facto de estar em África, numa zona (sub)tropical e ainda não ter visto sol.
Os dias têm estado assim:

(As gruas são uma constante em todas as fotos)
Em Angola há duas estações: A estação seca (ou do cacimbo), com temperaturas mais baixas e que vai de Maio a Setembro e a estação das chuvas, mais quente, que vai de Setembro a Abril.
Ou seja, agora estamos no Inverno aqui. E apesar de os dias estarem escuros, tem estado uma temperatura bem agradável a qualquer hora.
Enquanto o pessoal de Lisboa vai começar a apanhar com chuva, eu aqui vou gozando o começo do Verão.

Asfixiem-na por favor!! PT


É com interesse que, em Luanda, acompanho as notícias de Portugal. E é óptimo ter o privilégio de poder assistir aos debates televisivos entre os candidatos dos maiores partidos às legislativas.
Ontem foi o debate Paulo Portas/Manuela Ferreira Leite.
Relativamente a Portas não há muito a dizer, é um político que sabe o que anda a fazer, apesar de eu não concordar com as políticas que defende, pelo que jamais votaria nele ou no CDS-PP.
Quanto a Manuela Ferreira Leite, o debate pareceu uma brincadeira de crianças. Esta senhora é má de mais para ser candidata a primeira-ministra. É má de mais para estar à frente de um partido político. E é má de mais para estar na política. Completamente surreal. Sem argumentos, sem discurso, sem poder de encaixe, sem capacidade de resposta, sem estratégia, sem contra-argumentação, sem conhecimento dos programas dos adversários, sem propostas concretas. Nada de nada. E ainda por cima extremamente atrapalhada, confusa e contraditória.
Como é que é possível alguém votar nesta senhora para comandar o nosso país?
Um candidato que não apresenta o seu programa? Chama-se Manuela Ferreira Leite!
Não apresenta as suas próprias propostas porque, e vou citar: "está tudo no programa do PSD. Portanto não vale a pena repetir. O programa é fácil de ler". Pronto, tem razão.
Nesse caso para que é que ela serve? Bom, pelo menos para nos proporcionar umas boas gargalhadas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cidade de Lata? Ou de Platina?

Construção, construção e construção. E ainda mais construção. Luanda está em permanente construção. Não seria de admirar, já que Angola saiu da guerra há apenas 6 anos e há que refazer a capital e o país. Para isso, também costumam usar muito aquela actividade que se traduz em criar edifícios e outros empreendimentos através do uso essencialmente de cimento, betão e tijolo. Como é que se chama? Construção! É isso mesmo!


A questão que se coloca é: Como é que se pode continuar a construir numa cidade já lotada de gente e sem espaços por urbanizar?

A resposta é simples. Destrói-se um parque de estacionamento, um mercado, um jardim ou qualquer outra coisa para serem construídos hotéis ou empreendimentos luxuosos. E fazem-no mesmo ao lado de pequenas construções que ameaçam ruir. Se ruírem, melhor! Mais espaço para construir!

Ao bom estilo português (as influências são, naturalmente, evidentes) não há remodelações nem recuperações. Há construções novas. Com outro ponto comum: Portugal não precisa de mais casas. Luanda não precisa de mais hotéis nem apartamentos de luxo. Em ambas as situações há interesses económicos que falam mais alto. Tão alto como os empreendimentos que constroem.

Tirar fotos torna-se complicado. As pessoas não se sentem à-vontade com o facto de serem fotografadas. E não se pode fotografar edifícios públicos ou onde está a polícia, sob pena de sermos "interrogados". E, aliado a isso, não convém andar na rua a pavonear-nos com o telemóvel na mão. Ainda por cima um telemóvel com máquina fotográfica.

Mesmo assim, deixo algumas fotos que consegui tirar. Para que decidam por vocês mesmos se a cidade é feita de lata ou de platina. Na minha opinião é feita dos dois. Não há bronze nem prata. E esse é que é o problema.

Edífico antigo, edifício em construção e edifício novo, lado a lado:


Um dos mais imponentes edifícios de Luanda. Não sei bem o que é, mas sei que pertence a um grupo chinês:

(Note-se o senhor agente da autoridade a chatear a malta. Aquelas carrinhas azuis são o taxi da zona, hei-de ter a oportunidade de escrever sobre elas).
-
Edifício do Mercado de Valores Mobiliários e edifício da Sonangol, petrolífera angolana que detém, diria eu, pelo menos metade do país:

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alambam-se! 09.09.09

Há pouco reparei que hoje é dia 09 do mês 09 do ano 09. Como este ano não existem maravilhas do mundo a serem apresentadas, fiquei embuído de um espírito de valorização de conhecimentos histórico-culturais que me consome e me proibe de fazer coisas fúteis. Esse espírito quero partilhar convosco. Mas tem de ser rápido porque a seguir vou ver o jogo da selecção enquanto bebo umas mines.

Diz-se que em Angola é fácil casar e ter muitos filhos. A parte do ter filhos é verdade, principalmente se nos reportarmos apenas ao fazer. Mas casar já não é assim.

Em Angola, quando um homem quer casar, além de ter de procurar uma mulher decente, que o respeite e o trate bem, que mereça ser sustentada pelo seu trabalho árduo enquanto ela faz coisas de que gosta como lavar a roupa, fazer a comida e dar banho aos miúdos, um homem tem de pagar. É isso mesmo.

Chama-se alambamento. E traduz-se naquilo que um homem tem de pagar à família da noiva para casar. Imagine-se que o Semedo quer casar com a Felisberta. Não basta ter de a convencer a ela. Também tem de convencer a família dela. Nada de mais, diz o leitor mais espedito. Engana-se. Porque o Semedo vai receber uma lista de coisas que tem de comprar/oferecer à família da noiva. Podem ser artigos ou dinheiro. Tudo isto é feito numa festa de casamento, com música e rituais africanos. Alambamento. Porque há alguém que se lambe, parece-me.

Esta tradição, secular pelo menos, mantém-se até aos dias de hoje. Mas, como tudo na vida, tem vindo a ser alterada. Antigamente, os mais carenciados ainda podiam casar e só depois pagar os bens da lista do alambamento, desde que a família da noiva aceitasse.
Hoje em dia já não. Quem quer casar tem mesmo de pagar pela mercadoria. E ainda pelos bens da lista.

As instalações

O edifício onde estou instalado leva-me a dois mundos.

No interior da casa, antiga mas totalmente remodelada, estou num mundo. Um mundo com televisão onde consigo ver canais portugueses (rtp áfrica, rtp internacional, sic notícias), com um bom frigorífico e máquina de lavar, onde as paredes estão pintadas e o chão está arranjado. Em casa esqueço-me que estou em Angola.

Até que me aproximo duma janela. Aí, o barulho das betoneiras, escavadoras, geradores de electricidade e outras coisas do género começam-se a ouvir ruidosamente. E olho lá para fora. Vejo casas degradadas, entulho na rua, um trânsito caótico, construções umas em cima das outras, pessoas a caminhar sem destino. E volto. Para o meu portátil HP onde vou lendo as notícias do meu país e me sinto novamente na minha casa de Lisboa.

E é mais ou menos nessa altura que a luz vai abaixo no quarteirão inteiro, deixando-nos às escuras. Nunca pensei que uma viagem Lisboa-Luanda fosse tão rápida. Como essa, que durou apenas um quarto de segundo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Viagem 1-0 Desembarque



Após uma viagem de várias horas no vôo 251 da TAP, lá nos aproximámos de Luanda. A lua, que se conseguia ver das janelas, era uma enorme circunferência branca e brilhante. Muito maior do que a que estava habituado a ver em Portugal. Com o passar dos minutos passou de branca a amarela. Depois a laranja. E por fim a um tom acastanhado. Nunca tinha visto nada assim. Ainda estava no avião e África já me conseguia surpreender. E fascinar.

A viagem correu bem, sem qualquer sobressalto. Ao sobrevoar Luanda, de noite, foi-nos proporcionada outra visão fantástica: a de um presépio. Numerosas luzes, todas da mesma cor laranja, do mesmo tamanho e ao mesmo nível no solo, espalhadas por uma extensão imensa fizeram-me colocar em causa tudo o que se diz acerca da falta de condições em Angola. Será por ser apenas a capital?

A passagem pelo posto fronteiriço no aeroporto de Luanda não é fácil. Somos submetidos a um rigoroso interrogatório sob o olhar suspeito do guarda de 120 kg que nos coloca as questões. Ameaça recambiar para Lisboa metade das pessoas mas lá as deixa passar. E nem tiveram de lhe deixar uma gasosa nem nada.

Pé firme em terra angolana, temperatura amena e nada de mosquitos. Apenas algumas melgas idênticas às portuguesas. E também as há mais leves e daquelas que voam.

O Blog

Quando surgiu a possibilidade de trabalhar em Angola várias dúvidas se levantaram. Depois de aceitar a proposta, diversas vezes fui invadido por anseios e melindres que foram colmatados por pesquisas que fiz na internet.

Dessas pesquisas, encontrei vários blogs de portugueses que foram para Angola e de lá escrevem os seus relatos. Devo dizer que serviram de inspiração e apoio para enveredar na aventura africana. E prometi, para mim mesmo, que havia de fazer o mesmo. Por ser uma escapatória ao dia-a-dia, por gostar de escrever, por querer ficar com registos desta experiência, por querer estar próximo daqueles de quem gosto e para poder ajudar quem um dia venha a ter os mesmos medos (mais atrás escrevi anseios?) que eu tive.