quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O Natal em Luanda

Só me apercebi verdadeiramente que estamos na época natalícia quando cheguei a Portugal.

Em Outubro, já os canais televisivos portugueses são invadidos por anúncios repetitivos de descontos e promoções natalícias, alusões a brinquedos caros e inconsequentes, que tornam as crianças em máquinas consumistas, incapazes de sentir mais do que o agarrar dos brinquedos que pediram a um tal de pai que não existe, mas oferecidos por pais que se recusam a soltar as amarras a que julgam estar socialmente vinculados. Em Luanda, o mês de Outubro significa a mudança da estação do ano.

Em Portugal, existem iluminações por todas as cidades e mais do que uma árvore de Natal gigante. Em Luanda, existem meia dúzia de iluminações na zona da Mutamba.

Em Lisboa, existem filas intermináveis de carros cujos condutores procuram desesperadamente por um lugar no parque de estacionamento de um centro comercial qualquer. Em Luanda, o trânsito diminui porque milhares de expatriados regressam ao seu país nesta altura.

Em Lisboa, toda a gente deseja um Feliz Natal, recebem-se SMS e e-mails de pessoas com quem não se falou durante o resto do ano mas de quem continuamos amigos porque, quando enviaram mensagens para todos os contactos do telemóvel ou do computador, não foram à procura do nosso nome para o apagar. Em Luanda, por esta altura do ano, a tradicional "gasosa" altera a sua nomenclatura para um directo "comé, não tem boas festas?".

Em Lisboa, e em todo o país, pessoas correm alucinadas e de forma desenfreada à procura de presentes de última hora para oferecerem a outras pessoas a quem não contavam dar mas que entretanto as surpreenderam com um presente e, portanto, criaram para o resto de suas vidas uma obrigação natural de retorquir o gesto. Em Luanda, a existe a tradição de oferecer cabazes de Natal contendo bens essenciais à alimentação das famílias, sendo utilizados, contudo, mais no âmbito empresarial ou profissional. Quem oferece presentes limita-se às pessoas que lhe são realmente próximas e se não oferecer, também não é olhado com desdém porque o Natal é celebrado tendo em conta a religiosidade de quem o celebra, independentemente de colocar, ou não, um menino Jesus à varanda.

Em Lisboa, as pessoas queixam-se do trabalho, das compras, dos presentes, das comidas, da arrumação das casas, de um tal familiar que não era suposto ter vindo comer mas avisou à última da hora que afinal sempre apareceria, para no dia 26 de Dezembro ser tudo igual, à excepção das crianças que dos 6 aos 16 anos jogam nas suas playstations os novos jogos que receberam. Em Luanda, não sei como será o dia 26 de Dezembro, mas estou tentado a apostar que será idêntico ao resto do ano, não por ser igual à capital portuguesa mas porquanto nunca mudou realmente.

Ao povo angolano (tal como ao português) não desejo uma ceia farta, com bacalhau, perú, doces e outras iguarias abundantes mas tão-somente que tenham comida suficiente para matar a fome, nesta época e no resto do ano.
Permitam-me ainda não desejar um "Feliz Natal" mas optar por um menos clássico, mais sentido e bem mais importante "Saúde e Paz" para todos vós.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Na "Tuga"...

Bem sei que estive ausente do blog por quase um mês, ausência essa normalmente motivada pela falta de tempo para escrever. E quando conseguia algum, faltava a motivação ou a disposição. Quando todos estes factores estavam reunidos, faltava a energia. Eléctrica ou corporal. Seja como for, volto às postagens regulares.

Após três meses, regressei a Portugal ou, como commumente se ouve dizer em terras angolanas, regressei à "Tuga". O quente clima africano contrasta com o frio que se faz sentir no Velho Continente. Temperaturas tão baixas não eram registadas no nosso país há muito tempo e devo admitir sentir esse frio de forma especial, o que faz sentido porquanto em Angola até podia chover que continuávamos de manga curta na rua.

Ao lembrar que estive ausente tanto tempo, causa-me estranheza pensar que tudo continua igual. Por vezes, parece que nunca saí. As ruas, os caminhos, o estilo de vida, as pessoas. Nada mudou.
Pensando bem, porque raio haveria de ter mudado o que quer que fosse?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Mulheres Zungando Mulheres

Em Luanda não é preciso ir ao mercado, o mercado vem até nós, onde quer que estejamos. Disso exemplo são as "zungueiras": vendedoras ambulantes no verdadeiro sentido da palavra porquanto, de facto, deambulam pela cidade, por vezes parando em zonas estratégicas, e que equilibram, em cima da cabeça e de forma inverosímil, alguidares cheios de fruta, legumes, peixe, pão ou peças de roupa, entre outros produtos.

Além destas, há "zungueiras" que, estrategicamente, se posicionam à entrada de supermercados, aproveitando os preços elevados que estes cobram, para com eles ombrearem em concorrência, no que à venda de frutas e legumes diz respeito.

Sem dúvida alguma que qualquer pessoa fica impressionada ao constatar que, além dos muitos quilogramas de mercadorias que equilibram apenas com a força da espinha dorsal, muitas destas vendedoras levam os seus filhos bebés às costas, presos com panos que os deixam espalmados aos corpos de suas mães e que quase sempre dormem, certamente conduzidos pelo bem-estar proporcionado.

Enchem a cidade de vida, força e determinação:










Há dois dias atrás, saí do supermercado Martal, sito na Maianga, e logo fui invadido por questões vindas de "zungueiras" que se encontravam sentadas do outro lado da estrada, com alguidares a seus pés e que me gritavam coisas como "padrinho, cenoura?", "pepino, paizinho?" - São estes os termos carinhosos pelos quais tratam os homens brancos - E como eu continuasse a olhar para elas a sorrir, vieram atrás de mim duas delas, a tentarem vender os seus produtos. Pousei os sacos no carro e permaneci ao lado deste porque, na realidade, havia coisas que ainda me faltavam. Como já duas vendedoras estavam junto a mim e eu mantinha diálogo com elas, rapidamente apareceram outras, vindas em passo apressado com alguidares na cabeça a perguntar se eu queria bananas, mangas, ananases ou outras delícias da terra.

Fui comprando algumas coisas, regateando aqui e ali, aumentando a mercadoria ou diminuindo o preço, tudo era alvo de negociação que sempre trazia vantagens a ambas as partes.

Entretanto apercebi-me que, das várias vendedoras que por ali se encontravam, uma delas era a chefe. Satisfeito com o meu poder negocial, dirigi-me a ela:

- Então, o que é que tens mais para vender? - Questionei, de forma confiante.
- Tenho cebola, cenoura, pepino, coentro e mulher! - Respondeu a chefe das vendedoras.
- Desculpa, não entendi a última que disseste. - Afirmei, preocupado com a eventualidade de ter ouvido correctamente à primeira.
- Mulher. É esta aqui, por 100 dólares, o padrinho passa o resto do dia com ela. - Esclareceu, ou não.

De imediato apontou para uma outra mulher que ali se encontrava, de estatura baixa, cabelo comprido, pele escura e seios voluptuosos e que não levantava a cabeça, limitava-se a olhar discretamente de baixo para cima, mantendo os olhos a uma curta altura, talvez à altura do seu generoso decote, enquanto esboçava um sorriso tímido e confuso, enquanto via, a não mais de trinta centímetros do seu rosto, o dedo da chefe apontado para ela.

- Obrigado, mas fico-me pelos coentros. - Retorqui, momentos antes de entrar no carro para regressar a casa, enquanto pensava que há coisas que nem sequer deviam ser apontadas, quanto mais vendidas ou regateadas. Melhor ainda, nem sequer deviam ser chamadas de coisas, quanto mais tratadas como tal.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os Musseques

São como um mar imenso de uma tonalidade cinzenta que se perde de vista e nos inquieta o espírito. O cinzento é a cor do cimento das paredes e das chapas de zinco dos telhados. São uma espécie de casas, de pequenas dimensões, de um piso apenas, encostadas umas às outras, que se extendem ininterruptamente por vários hectares de terreno e nos confundem a visão por, a uma certa distância, não ser possível identificá-las singularmente mas apenas como parte de um todo que é indissociável.

Em Portugal existem bairros de lata e, no Brasil, favelas. Mas sem dúvida alguma que nenhum destes se aproximará sequer ao choque que é ver um mar de largas centenas de mínusculas casas construídas à mão, na absoluta ilegalidade, em terrenos ocupados e que albergam milhões de pessoas. São os Musseques de Luanda:




(Início do musseque do Sambizanga, com vendedora na berma da estrada.)



(Da zona de onde tirei esta foto, começa-se a ver o musseque, distante mas impressionante.)



(Muitas casas de musseque estão construídas no cimo de montes. É frequente ver os seus proprietários subirem estes morros para lhes acederem.)



(Tijolos cinzentos, cimento cinzento e telhados cinzentos. E uma loja de fotocópias e fotografias a cores. A construção é a mesma, só mudam as cores. À sua frente, duas "zungueiras" a caminhar.)



(Musseque visto de cima. Na foto não é perfeitamente perceptível o que ali se encontra, mas a olho nú também não o é. Ouvi dizer que são casas onde moram pessoas.)

Conduzia o carro devagar. Da estrada de alcatrão virou à direita, entrando num tão comum piso de terra batida. A ligação era feita por uma tábua de madeira, colocada por cima de uma enorme vala, que ameaçava ceder a qualquer momento. "Avança", ouviu com segurança e assim fez, avançar apenas, jamais com segurança. O caminho por entre as casas era estreito mas perceptível, quer pelas marcas de pneus fixadas na terra, quer pelo facto de ser o único sítio por onde era possível circular de carro. Ali, as pessoas não tinham medo de ser atropeladas, sabiam que não o seriam e portanto, não se desviavam. As crianças eram imensas e brincavam à volta do carro, saltavam, corriam e punham em perigo não as suas vidas mas as daqueles que iam dentro do veículo. Chegados ao destino, saíram um branco e um  negro. Só o carro, brilhante e de alta cilindrada, já tinha sido suficiente para chamar a atenção das pessoas que se encontravam no musseque mas quando aqueles dois homens bem vestidos se fizeram mostrar, todas as atenções se centraram neles, num especialmente.
Ao sair, caminhou lentamente de encontro a umas vendedoras que estavam sentadas naquele que devia ser um pequeno mercado de levante local. Enquanto o homem negro tentava dialogar com senhoras que daquela forma procuravam alcançar o seu sustento e o dos seus, o homem branco só conseguia manter a boca fechada porque havia percebido que de outra forma lhe entrariam moscas lá para dentro, talvez as mesmas moscas que, às dezenas, pousavam nas iguarias expostas para venda e que, e era nisso que o homem branco focava o seu olhar, faziam parte do corpo das crianças que ali se encontravam, vestidas apenas com umas cuecas delicadas e sujas, que em nada protegiam. Abstraindo-se da acesa conversa que ocorria mesmo ao seu lado, concentrou-se inadvertidamente em olhar para uma pequena criança de não mais de cinco anos que ali se encontrava, descalça na terra batida, praticamente nua, suja, manchada, ferida, com dezenas de moscas à sua volta e outras tantas no seu corpo delicado. Impressionou-se com o cenário e a criança, que certamente nunca tinha visto alguém de tez tão clara, também ficou espantada e olhava de forma curiosa, escondendo-se de vez em vez atrás da sua mãe. Tinha o cabelo curto, numa cabeça muito redonda que se destacava do resto do corpo e que conduzia aos seus olhos, enormes, escuros e redondos, e foi com eles que lá foi matando a curiosidade que a consumia e que por fim se desvaneceu com uma ligeira aproximação e com um sorriso tão grande, tão espontâneo e tão inocente, que lhe cobria o rosto e vestia o corpo e que originou que lágrimas de choque e de tristeza subissem aos olhos daquele homem branco que agora vos escreve com a certeza de que há imagens que nunca se esquecem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dia da Independência


Hoje é feriado nacional em Angola: celebra-se o Dia da Independência.

Foi no décimo primeiro dia do décimo primeiro mês do ano de 1975 que Angola, outrora a jóia da coroa do Portugal colonial, se tornou independente e se afirmou como Estado soberano.

Em Portugal, a revolução do 25 de Abril de 1974 abria as portas à descolonização. Teoricamente, a revolução verificada deveu-se, em parte, à luta pela independência das colónias portuguesas. A descolonização foi a grande bandeira erguida pelo MFA e, quer o Partido Comunista, quer o Partido Socialista, se afirmavam a favor desta. Por outro lado, o Presidente da República, António Spínola, ainda procurou desvirtuar o programa do MFA, logrando um entendimento para que Portugal continuasse a ter algum poder nas colónias ultramarinas, mesmo que tivesse de as dotar de certa autonomia. Para Spínola, foram intenções que não passaram disso mesmo e que, sendo-as, duraram pouco tempo.

Commumente se ouvem vozes de portugueses que criticam a revolução dos cravos e a consequente descolonização porque este processo obrigou portugueses caucasianos a regressarem ao território continental e a abandonarem as suas casas e outros bens que tinham conseguido com o esforço do seu trabalho em terras angolanas.

O que é certo é que não se pode idolatrar a liberdade e defender o colonialismo. Se o Abril de 74 ofereceu a liberdade aos europeus de Portugal, seguindo a mesma linha de pensamento, teria obrigatoriamente de oferecer a liberdade aos africanos de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, de São Tomé e da Guiné-Bissau. Não pode existir liberdade sem independência. Não se pode exigir a liberdade para nós próprios e definir que a liberdade dos outros é aquela que nós lhes atribuirmos.

É importante lembrar que a Guerra do Ultramar prolongava-se há vários anos. As perdas, materiais e humanas, de soldados e civis, a saturação da população em geral, a fuga e o medo constantemente presentes nos africanos, qualquer que fosse a raça, não permitiam a prolação de uma guerra que não acabaria enquanto Angola não fosse independente. O argumento de que os militares portugueses tinham, em meados da década de 70, praticamente derrotado os guerrilheiros de libertação angolanos e de que a guerra tinha o seu fim à vista não podem ser invocados.

Em primeiro lugar porque se constatou que, após a entrega do poder aos angolanos, iniciou-se uma guerra civil que durou vinte e sete anos, desta vez pela disputa de poder entre os movimentos de libertação do país (nomeadamente, entre o MPLA, a UNITA, o FNLA e a FLEC, com menor incidência nestes dois últimos).
E em segundo lugar, e de não menor importância, porque estes movimentos não se tratavam apenas de guerrilheiros idealistas de catanas nas mãos. Eram movimentos apoiados pelos Estados Unidos, pela África do Sul (caso da UNITA e da FNLA) e pela URSS (caso do MPLA), organizados, decididos e cruéis, a actuar no ponto alto da Guerra Fria e, se é certo que a guerra começou pela luta pela independência do país, também é certo que Angola, com o seu imenso petróleo, e a existência de ouro, diamantes e de outros minerais e metais, tornavam os apoios ainda mais apetecíveis.

Aquando do fim do Estado Novo em Portugal, apenas existiam duas hipóteses para o destino de Angola e para as demais colónias africanas: Ou procurar um entendimento com as forças de libertação para a entrega do poder, tentando a independência pacífica do país e originando uma eventual fuga de portugueses para a Europa; Ou recusar aquela independência e em vez de originar uma eventual fuga de portugueses, originar o seu massacre certo, cego e sangrento.

É certo que a entrega do poder a um dos movimentos de libertação não foi efectuado de forma totalmente correcta. Mas também é verdade que nestas situações o tempo é crucial, porque a sua falta origina o fim de vidas humanas. E o grande problema não foi ter-se descolonizado o país em 1975. O grande problema iniciou-se cinco séculos antes.

A liberdade, a independência e a auto-determinação dos povos são pilares estruturantes para o desenvolvimento dos mesmos e para a obtenção da paz e do progresso mundiais, algo que foi principiado naquele dia do ano de mil novecentos e setenta e cinco e que, neste país, demorou vinte e sete anos a almejar.

Hoje, celebrou-se o São Martinho em Portugal. Mas houve países onde se celebraram coisas importantes.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Xeque-mate

Na senda da ampliação de conhecimentos no que concerne aos estabelecimentos de diversão nocturna da capital angolana, visitei o Xeque-mate, discoteca que fica por baixo do malfadado Xavaroti.

Quando escrevo que fica por baixo é literalmente. O acesso a esta discoteca, situada numa cave, faz-se através da descida duma escadaria existente logo após a porta de entrada. Esta situação torna o espaço relativamente claustrofóbico, ainda que de forma suportável e apesar do calor que sempre cresce com o passar das horas e com o aumento do número de clientes presentes.

Relativamente ao preço, como tudo aqui, não é barato, são KZ 3000,00 (cerca de € 24,00) de consumo mínimo.

Quanto ao espaço em si, é escuro e abafado e os ritmos tocados são praticamente todos de origem africana, o que me deixa sempre embaraçado quando tenho a infeliz ideia de tentar dar um pézinho de dança, algo que os locais fazem com enorme naturalidade.

Não é certamente dos melhores locais de Luanda para sair à noite. Contudo, o ambiente divertido e descontraído do local e a simpatia de alguns angolanos possuidores de afinidades com Portugal, com quem tive a oportunidade de travar conhecimento, tornaram a experiência bastante positiva.

domingo, 8 de novembro de 2009

Xavaroti

Tenho procurado, de modo paulatino, ir conhecendo os espaços de diversão nocturna existentes em Luanda, o que me permitirá, quando estiver com vontade de descontrair um pouco, ter uma maior liberdade de escolha.

Na semana passada fiquei a conhecer o "Xavaroti", um bar em Luanda, de dimensões reduzidas, apesar dos seus dois andares, e com música ao vivo.

Devo afirmar, desde já, não ter apreciado minimamente a experiência. Trata-se de um espaço muito fechado, extremamente caro (pagam-se KZ 2500,00 de consumo mínimo, isto é, cerca de € 20,00) e de um ambiente estranhamente calmo, até sisudo, mais apropriado para casais cujo entusiasmo libidinoso se limite a uma memória remota.
Mas o pior de tudo são mesmo os empregados: Onde já se viu uma empregada perguntar a cada um dos clientes sentados a uma mesa o que querem tomar, depois levar consigo todos os cartões de consumo e ficar com os mesmos após entregar os pedidos? Bem sabemos que temos de nos habituar às formas de funcionamento locais mas, quando quis sair do bar, antes de outros amigos que ainda ficaram, verifiquei que a empregada registou todo o consumo da mesa num dos cartões e os outros ficaram em branco. Como resultado, instalou-se uma imensa confusão, exaltei-me um pouco, não com o acto em si mas com a estúpida postura dessa "senhora" que continuava a acreditar que o que faz sentido é atribuir um cartão de consumo a cada um dos clientes e depois apontar as bebidas de todos apenas num.

Acabei por demorar mais de trinta minutos para conseguir sair de um bar com lotação para dúzia e meia de pessoas e no qual não voltarei a pôr os pés.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pequenas grandes coisas

Existem coisas que, sendo habitualmente simples, se tornam complicadas quando feitas em Luanda.

Descobri que uma delas é cortar o cabelo. Saudosos tempos em que os dilemas da "ida ao baeta" se limitavam a conseguir ter disponível o tempo necessário e a saber qual dos barbeiros habituais não havia subido o preço acima dos dez euros.

No circuito empresarial de Luanda, a apresentação tem um papel importante. Assim, indaguei algumas pessoas conhecidas sobre qual o melhor sítio a visitar para ficar a parecer o Abel Xavier invertido (invertido porque é com o cabelo escuro e a tez clara). A escolha é pertinente: num país onde existem várias doenças e a SIDA é ainda um flagelo, é aconselhável optar por um estabelecimento de confiança. Daí que tenha decidido ir a um hotel de 4 estrelas, o Hotel Alvalade, em Luanda.

O hotel em si tem uma óptima apresentação, assim como o cabeleireiro unissexo que, por fim, lá consegui encontrar. Fiquei tranquilizado e confiante quando vi as instalações, quando reparei que tinha imensa clientela e quando me apercebi do elevado número de portugueses que lá se encontravam a embelezarem-se.

Chegada a minha vez, sentei-me na cadeira e disse com convicção:

- "Máquina três dos lados e atrás e máquina cinco em cima, por favor."

Achei que, se fosse tudo cortado à máquina, a tarefa do barbeiro seria facilitada porque as tesouras requerem maior prática. E também porque são mais perigosas, vá.

Ao início até correu bem, e por início deve entender-se a parte em que passei da cadeira da sala de espera para a cadeira do corte, mas tão-somente esse espaço temporal.
Talvez eu seja demasiado exigente, mas um pente com dentes pontiagudos a ser constantemente cravado na parte superior das orelhas e uma máquina de cortar cabelo especialista em arrancar couro cabeludo, manuseados por um barbeiro que, além de emanar um forte odor a transpiração, acabava por puxar os cabelos até os conseguir arrancar em vez de optar pelo tradicional cortar, estavam a ser demais para mim. Felizmente, só faltava acertar a parte de cima com a máquina e eis que, repentinamente, o barbeiro (se é que assim o posso chamar) pegou numa tesoura e deu dois cortes. Calculei que estivesse a fazer algum acerto que só pudesse ser realizado com este instrumento mas, com as tesouradas seguintes, percebi que ele ia mesmo cortar tudo desta forma. Deixei-me levar pelo cansaço, achando que estava quase a terminar e bastava continuar de dentes cerrados e maos apertadas uma contra a outra para me aguentar.

De seguida, pegou nas lâminas de acertar o corte e lá me foi raspando o pescoço como se por baixo da pele fosse encontrar algum tesouro escondido e, finalmente, terminou o pesadelo. Lá se foi o pente número cinco da máquina de cortar que eu havia pedido e que nunca chegou a ser usado, lá se foram os KZ 2250 (cerca de vinte euros) que paguei para ser torturado e lá se foi o Abel Xavier pelo cabeleireiro fora com menos vinte euros no bolso. Não, esperem, o Abel Xavier não tem um corte aos ziguezagues. Pelo menos, lá se acabaram as dores. Não, esperem, as dores continuaram.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

GMT + 01:00 África Centro Oeste

Finalmente, o fuso horário faz-se sentir. Depois de ter chegado a Angola e ter estado mais de um mês e meio com a hora igual à de Portugal, eis que, agora, me levanto mais cedo do que todos vós para ir trabalhar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Si bô 'squecê me / M ta 'squecê be / Até dia / Qui bô voltà


Bem sei que o título está escrito em crioulo cabo-verdiano, mas é parte da letra de uma música largamente conhecida e verdadeiramente espectacular, também ela de uma cantora cabo-verdiana: Cesária Évora - Sodade.
É África à mesma, faz o efeito.



Ultimamente, muito me questionam se sinto saudades e, apesar da singularidade e ambiguidade do termo, respondo: De quê? Será de casa? A casa não é mais do que um local onde habitualmente se come e se dorme e de onde saem, todos os dias, as formigas mecânicas com olhos ensonados que lá habitam. Para alguém que em oito anos viveu em seis casas diferentes, falar de casa é falar de tijolo. Falar de lar é falar do sítio para onde vão as pessoas idosas.

Questionam se sinto saudades e eu respondo De quê? Será do país? Porque seremos nós obrigados a gostar de um país só porque é o nosso? Porque seremos nós obrigados a sentir saudades do país onde sempre vivemos quando nos afastamos? Não se trata de não gostar do país, porque gosto, trata-se de questionar de que é que posso sentir falta. Da língua, de praia ou de calor não será certamente. O povo actual não é algo que me fascine propriamente, o tempo dos heróis do mar já lá vai. No meu país, as oportunidades de futuro são escassas e o mais que se faz em cultura é prestar homenagens repetitivas a uma cantora que já faleceu.

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Das pessoas? Que pessoas, os amigos? As saudades, a existirem, só surgem quando se verifica uma ausência prolongada, à qual não estamos habituados. Quantas vezes se passa um mês e meio sem que estejamos com amigos, sem que falemos com eles, até? Porque haveremos de sentir saudades de pessoas das quais moramos a meia dúzia de quilómetros e não sabemos notícias suas por períodos prolongados? Não é por estarmos mais longe que as sentiremos, inexiste uma relação causa/efeito entre distância e saudade. Porque haveria de sentir saudades de pessoas que, por vezes, se sentam na nossa mesa mas não estão connosco, apenas no mesmo sítio? Porque haverei de sentir saudades se, antes de partir para outro continente, recebi incontáveis mensagens de apoio, surpresas, carinho e amizade pura? Porque haveria de sentir saudades se isso me foi proporcionado por ter vindo? Toda a felicidade que senti teve causa num passado que se prolonga ao presente. Devo sentir saudades de quando nunca pensei em partir? Ou devo sentir saudades de quando estava para vir e a separação entre os amigos e os outros foi feita? Nesse caso, só será possível senti-las quando estiver em Portugal, em Dezembro, ironicamente na mesma altura em que recebo centenas de mensagens de Natal, as mesmas que continuamente me recuso a enviar, vindas de pessoas cujos números já apaguei.

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Da família? A família não é mais do que um grupo de pessoas que, de facto, não se conhecem realmente. Família não é ser irmão, não é ser pai, não é ser primo. Ser família não é estatuto. Família é fazer uma chamada quando terminamos um exame, é ligar a internet para falar connosco, é mostrar um sorriso especial porque nos é dirigido, é ajudar a ultrapassar dificuldades sem precisar de proferir mais do que duas palavras, talvez nenhuma até. Uma nova separação entre família e parentes fez-se por ter vindo para Angola e, se isso me ajudou a conhecer melhor algumas pessoas e me fez sentir mais próximo delas, apesar de estar mais afastado, porque haveremos de sentir saudades?

Questionam se sinto saudades e eu respondo: De quem? Da namorada? Há sentimentos que são favorecidos com a possibilidade da distância e com o afastamento efectivo, sendo certo que não me refiro à saudade, esta, a existir, é esmagada por outros que se tornam mais fortes. Não desprezo o namoro, mas desprezo a palavra. Namorar não é mais do que um termo vazio que hoje em dia se utiliza de peito cheio para tentar provar uma qualquer correcta inserção numa sociedade que define outros termos ou alternativas como comportamentos desviantes. Diz-se que se ama sem amar, fazem-se juras de amor para toda uma vida que só dura algumas semanas. Namorar não é dizer que se namora, não é andar a pavonear-se de mãos dadas por centros comerciais, não é privar alguém das coisas de que gosta, não é privar-se a si mesmo das coisas de que gosta nem privar os outros de estar consigo. Namorar não é dizer palavras bonitas nem utilizar frases feitas. Namorar não é dizer que se ama, nem fazer coisas para o tentar provar. Namorar é saber que alguém pensa em nós. Namorar é compreender sem olhar, é sentir sem tocar, é reconfortar sem falar. Namorar é amor, namorar é amar. Namorar é caminhar junto, não lado a lado. Namorar é saber que a outra pessoa está connosco, mesmo sem estar, é conseguir comunicar sem que mais ninguém compreenda. Namorar é viajar sem destino. Namorar é saber que, quando nos afastamos, há alguém que espera por nós, demore o tempo que demorar, e isso fazer-nos não mais querer partir.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Constrói-Angola 2009"

Decorreu, de 15 a 19 de Outubro, a 7ª Edição da "Constrói-Angola 2009", a Feira Internacional de Construção, Obras Públicas e Materiais de Angola, co-organizada pela FILDA (Feira Internacional de Luanda). Trata-se de uma exposição onde as empresas expositoras promovem produtos e serviços relativos aos respectivos sectores de actividade.

Ontem tive oportunidade de a visitar, havendo a registar duas curiosidades:

A primeira é respeitante ao horário de funcionamento que, apesar de ser até às 20:00 horas, por volta das 17:00 horas já muitas empresas haviam-se retirado e consigo levado as mercadorias que tinham exposto. Das duas, uma: Ou o estado de saturação e cansaço dos seus responsáveis era tanto, já que o calor esteve abrasador durante o fim-de-semana e estar cinco dias fechado num pavilhão não é propriamente a melhor forma de passar o tempo; ou a Feira correu realmente bem, agendaram diversas reuniões, trocaram imensos contactos e acordarem numerosos negócios, pelo que não lhes adiantava prosseguirem. Talvez tenham sido os dois em simultâneo mas, se em Portugal não existe uma mentalidade de trabalho como noutros países europeus, em Angola é ainda pior.

A segunda tem a ver com o facto de, mesmo tratando-se de uma exposição sobre Construção Civil, existirem imensas pessoas (essencialmente crianças, mas não só), que avançavam de expositor em expositor a pedinchar brindes.
À saída do recinto da Feira, aparecem dezenas de miúdos que nos cercam e nos pedem um qualquer brinde, um qualquer presente, uma qualquer nota, ou simplesmente uma qualquer atenção, por serem constantemente desprezados por quem passa.
Tive a possibilidade de contemplar um gesto solidário: uma pessoa tirou do pescoço uma fita porta-chaves que trazia e, depois de guardar as chaves, ofereceu a fita a uma das crianças que por lá andavam. Vi o sorriso da criança quando a recebeu e vi a satisfação com que a pessoa se afastou, olhei novamente para a criança, mas já não encontrei sorrisos, nem felicidade, nem alegria. Estranhei, olhei melhor, vi angústia,  vi força, vi coragem, vi peserverança, vi luta e vi outras duas crianças a baterem na primeira para lhe roubarem o ceptro daquele reino chamado selva.

domingo, 18 de outubro de 2009

Esterquice no Paraíso

Existem alguns traços fulcrais na determinação de quão civilizada é uma cidade ou um país. Além de ser necessário atender ao sistema político instituído, à economia e a outros factores de desenvolvimento filosófico, científico e tecnológico, mais importante é focar as atenções na sociedade em si, isto é, na formação, no civismo, no respeito e na educação das pessoas.
O lixo que se vê pela cidade não é mais do que a prova de que a civilização ainda não chegou a Angola e, se alguma vez chegou, provavelmente morreu na guerra.

Mesmo assim, devo admitir que, antes de vir, esperava pior. Documentários, relatórios e artigos de opinião definiam Luanda como uma enorme lixeira a céu aberto, algo que, apesar de tudo, não se verifica. E não se pense que li tudo isso, até porque ler faz mal aos olhos, mas alguém me disse que havia uns quaisquer documentários, relatórios e artigos de opinião que falavam de qualquer coisa má sobre Luanda e, para mim, isso é quanto baste. Eu acredito nas pessoas.

As melhorias verificadas devem-se muito ao facto de, ultimamente, estarem a ser efectuados grandes esforços para limpar a cidade. O evento futebolístico CAN 2010, organizado por Angola, está certamente a ser um impulsionador do banho de imersão, com direito a sais de banho, que está a ser dado àquela menina que se lembrou de ir jogar à bola com os rapazes e que se chamada Luanda.







(A maioria das ruas tem imenso lixo espalhado mas parece que sou o único que se importa. As pessoas deitam o lixo para o chão com uma naturalidade imensa, se bem que, em rigor, não existem contentores destinados a esse fim, como em Portugal. Há alguns caixotes amarelos e de pequenas dimensões mas que são visivelmente insuficientes.)







(As obras na baía de Luanda, junto à marginal, materializaram os contentores de lixo que inexistem na cidade e que transformam, quer pela paralização das águas, quer pelo constante arremesso de lixo, a zona mais bonita da capital num autêntico esgoto. Ratazanas incluídas.)











(Estive alguns minutos na zona da última foto e pude contemplar, por mais do que uma vez, alguns residentes chegarem perto daquele monte de lixo, largarem sacos, despejarem caixotes e abandonarem o local calmamente.)


(Numa natureza que oferece tudo, o Homem vende imundice.)

Talvez esteja enganado e a civilização já exista em Luanda. Se existe separação de lixo, não pode estar assim tão atrasada, não é verdade? Desde que por separação de lixo se entenda separar o lixo do que não o é e despejar o primeiro numa esquina qualquer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sangano

No Domingo tive a oportunidade de conhecer outra praia fantástica situada fora do centro urbano de Luanda: Sangano. Para quem vem da capital, fica antes de Cabo Ledo, praia a que já pude fazer referência anteriormente e, apesar de Sangano formar uma baía de menores dimensões e ter uma areal mais pequeno, é igualmente bonita e relaxante:


(As crianças angolanas adoram praia. Mesmo.)



(Desta vez não vi ninguém a correr ao longo do areal)



(Estive algum tempo sentado na esplanada daquele bar de madeira, onde tentei ter uma vista agradável mas só via mar)


(As espreguiçadeiras e os chapeús de sol, ambos feitos de madeira, são uma constante destas praias, claramente vocacionadas para os estrangeiros. Já não se arranjam virgens, isto é, sítios virgens da mão do Homem)


(Esta era a vista do sítio onde almocei. Foi maravilhoso ver os pescadores chegarem à praia em barcos deste género, a remos, carregados de lagostas)


Por cá, tento apreender os hábitos e costumes locais portanto, ao almoço, tive de provar as especialidades da casa: Lagosta ao alho e arroz de lagosta.
Lá fiz esse esforço e, para meu enorme espanto, são ambos saborosíssimos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

C.S.I. Luanda

No passado fim-de-semana estive presente numa situação assustadoramente engraçada que se passou numa praia, aqui em Luanda. Numa altura em que estava a dormitar para repor as energias e melhorar o meu bronze com o intuito de passar mais despercebido entre os locais, eis que surge um 4x4 da polícia. Avançam pelo areal com o veículo e param-no junto a umas rochas onde estavam dois indivíduos encostados.
Sai um par de polícias (também aqui andam aos pares) e encaminham-se para o local onde se encontravam os sujeitos. Caminham descontraídos, começam a subir umas rochas para se aproximarem o melhor possível e eis que, quando finalmente estão quase a chegar, certamente para terem um diálogo interessantíssimo sobre futebol, carros, ferramentas ou qualquer outra coisa que domine as conversas do sexo masculino, inesperadamente, um dos sujeitos começa a saltar de rocha em rocha. Não, não se estava a tentar gabar de nenhuma proeza física mas conseguiu, em dois saltos, pôr-se na areia, iniciando de seguida uma frenética corrida, com tanto afinco como se a sua liberdade dependesse disso (sempre tive uma fértil imaginação).
Os agentes permaneceram parados a olhar para ele, o companheiro de armas (mas não de crime) do fugitivo, permaneceu parado e toda uma praia ficou imóvel e quase silenciosa a assistir à cena. Escrevo quase silenciosa porque o motor do 4x4 continuou a trabalhar.
E durante aqueles 50 segundos assistimos a um constante bater de calcanhares nos glúteos, numa corrida de resistência e de velocidade em simultâneo, numa corrida pela sobrevivência. E não se pense que, para fugir, o sujeito correu da praia para a estrada, nada disso. Optou por correr pelo areal fora até desaparecer de vista.
Virei-me e retomei a minha sesta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Legalista, Moralista e de Bons Costumes

Angola, do ponto de vista arquitectónico, não tem grandes motivos de interesse. Na capital, a esmagadora maioria dos edifícios são antigos, do tempo colonial, a precisar de uma nova restauração ou de uma primeira. Além destes, existem outros, construídos à margem da legalidade: cimento, areia e tijolo empilhados de forma discricionária num qualquer terreno ocupado para criar um lar para uma ou mais famílias.

Mesmo assim, existem alguns edifícios dignos de registo. Um deles é o do banco central, o Banco Nacional de Angola (BNA), sito em plena Avenida 4 de Fevereiro, na marginal. Uma autêntica beleza:







Outro edifício digno de interesse é o do Governo Provincial de Luanda. Todavia, não é fácil fotografá-lo. Há tempos tentei fazê-lo e apareceu logo um segurança a dizer que para o efectuar, por ser um edifício oficial do Estado, era necessário requerer, previamente, uma autorização ao próprio Governo Provincial.
Naquela altura, não tinha autorização para tirar a recordação. Pedi desculpa pelo meu atrevimento, afirmei que iria requerer a devida autorização, garanti ter apagado a foto que entretanto havia tirado, prometi-lhe uma gasosa e fui embora.
Agora, imaginem que fui ao Governo Provincial de Luanda passado uns dias, imaginem que fiquei horas esquecidas na fila para pedir um qualquer papel absurdo, imaginem que fiquei horas noutra fila para entregar o documento, imaginem que fiquei horas noutra fila porque me tinha enganado na fila anterior, imaginem que esperei uns dias pelo deferimento do requerimento, imaginem que paguei uma gasosa para acelerarem o processo, imaginem que me voltei a dirigir aos serviços provinciais, imaginem que voltei a aguardar horas numa fila para levantar um qualquer suposto documento ridículo, imaginem que voltei ao local para fotografar, imaginem que mostrei o documento a todos os presentes para não ser alvejado por um tiro de uma qualquer caçadeira a cumprir deveres idiotas do Estado e, por fim, imaginem que tirei uma foto dentro da legalidade:





Curiosamente, o edifício do Banco Nacional e o edifício do Governo Provincial têm a mesma cor. De certeza que é por razões de interesse económico e com isto quero apenas dizer que certamente sobrou tinta quando pintaram um e, para economizar, usaram-na também para pintar o outro edifício.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Números a mais, ponteiros a menos




Setecentas e vinte. Esta quantidade, se expressa em horas, reflecte o período temporal da minha estadia em Luanda.
Por aqui, a mão de ferro com que a cidade me guia força-me a negar a contagem dos dias e a repudiar o cálculo do tempo que, afinal, inexiste. A percepção do dia-a-dia é-nos adulterada de uma forma violenta: num paradoxo esquivo mas racional, os dias são intensos e dilatados, pequenos e completos, escassos e demorados, cansativos e prazeirosos. Os dias são a noite da noite que não a é.
Decorrida que estava uma semana de estadia em Angola, sentia jamais ter conhecido outros lugares, outras cores, outros cheiros ou outros sabores.
Hoje, não me é possível afirmar estar cá há um mês. A minha presença neste país perfaz setecentas e vinte. Horas no somar, semanas no sentir.


domingo, 4 de outubro de 2009

"Quem canta, seus vizinhos espanta"

Não tenho a mais pequena dúvida quando afirmo que o povo africano é espiritual e religioso por natureza. Do feedback que tenho recebido dos angolanos a quem já tive oportunidade de questionar, apercebo-me de que são, na sua grande maioria, católicos devotos.

Nesse caso, interrogo: Se a Igreja Católica definiu o Domingo como o dia de descanso, porque raio é que são 23:00 da noite, amanhã é dia de trabalho e se ouve música a tocar na rua e pessoas a cantar?

É impressionante como esta gente passou o fim-de-semana todo a comemorar qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o quê, nem eles próprios, e continuam pela noite dentro.

Neste caso, lá se vão o respeito e o amor ao próximo que tanto apregoam, olvidando serem o tal povo religioso que mencionei. Mas também referi que são espirituais e isso certamente engloba fazerem uma dança da chuva colectiva no meio da estrada, às tantas da noite, como se não houvesse amanhã.

sábado, 3 de outubro de 2009

O Kwanza



Uma das coisas que maior curiosidade suscita quando estamos num país estrangeiro é a moeda local. Em Angola, a moeda oficial é o Kwanza (em abreviado: AKZ ou KZ), por referência ao maior rio do país, que tem o mesmo nome.

Contudo, apesar de o Kwanza ser a moeda local, neste local não existem moedas. E não há confusão, a circulação da divisa faz-se, em exclusivo, através de notas. Ainda são fabricadas moedas mas em número tão reduzido e de valores tão baixos que as tornam inexistentes na prática.

O Kwanza é uma moeda muito fraca. Tanto, que no ano de 1999 teve de ser reajustado numa proporção de 1 para 1000, isto é, o Kwanza que anteriormente valia 1000 passou a valer 1, o que é demonstrativo de quão baixo era o seu valor.

Mesmo assim, o Kwanza (actual) continua a ser fraco: 1,00 € (um euro) equivale a, aproximadamente, 114,00 KZ (cento e catorze Kwanzas). Ou seja, os cavalheiros que quiserem impressionar uma senhora podem trazê-la a jantar fora em Luanda e mostrar que pagaram qualquer coisa como 5000,00 KZ (cinco mil Kwanzas)!! Claro que elas não precisam saber que, de facto, pagaram pouco mais de 40,00 € (quarenta euros) pela jantarada. E a sobremesa vem depois, naturalmente.

Para quem viu as 14 notas da foto mais acima, deve pensar que estou rico. E acertou! Estou rico de saúde e bem-estar, mas é só. No que toca a dinheiro, estão ali qualquer coisa como 1,85 € (um euro e oitenta e cinco cêntimos). Basicamente, ando com a carteira cheia de notas e não tenho dinheiro para comprar uma sopa.

As notas são todas parecidas, de um lado têm uma paisagem do país e de outro têm a imagem de José Eduardo dos Santos (Presidente da República desde 1979 ) e de António Agostinho Neto (considerado o herói da independência, foi o primeiro Presidente da República do país, de 1975 a 1979).

Eis algumas notas:



Chamo a atenção para a última nota, de 5 KZ (cinco Kwanzas), que vale essa pequena fortuna de 0,04 € (quatro cêntimos). E como é útil esta nota: ideal para dar aos arrumadores de carros, sendo que, por vezes, até lhes dou duas! Mas só quando estou um mãos-largas, coisa que não acontece todos os dias.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A acompanhar Portugal...

Na política:

O Partido Socialista venceu as eleições legislativas, com José Sócrates a demonstrar uma enorme capacidade de trabalho, de liderança e sentido de responsabilidade. Foi a vitória do empenho, da vontade em continuar o desenvolvimento do país, da força e da perseverança contra a política do bota-abaixo, da falta de esperança, dos casos e da falta de ideias;

O PSD anuncia que ganhou as eleições parcialmente e que o PS as perdeu;

A CDU anuncia que venceu as eleições;

O BE anuncia que venceu as eleições;

O líder do PP recusa-se a discursar antes do PS e guarda-se para o final da noite, para anunciar a sua vitória nas eleições;

Manuela Ferreira Leite só conseguiu explicar que todas as explicações que deveria dar estavam num programa eleitoral que pouco explicava;

Cavaco Silva esteve imenso tempo sem dizer nada e entretanto falou para não dizer nada;

Paulo Portas, com um sorriso maroto, piscou o olho a Ricardo Araújo Pereira;

O Bloco de Esquerda foi perdendo fôlego e Francisco Louçã mostrou o seu verdadeiro valor (ou a falta dele), sendo certo que, a partir daqui, será sempre a descer nos resultados;


Nos casos:

Membros da Casa Civil da Presidência da República lançam boatos sobre alegadas escutas. Cavaco Silva diz não saber de nada, o que é estranho, visto ser ele o Presidente da República.
Discursa, acusando o Partido Socialista de manipular o caso das escutas telefónicas em seu proveito, o que faz todo o sentido, já que o caso tem a ver com acusações graves de que seria o Partido Socialista que estaria por detrás dessas escutas. Só Cavaco Silva é que percebeu o esquema do partido: inventa-se que existe espionagem à Presidência da República feita pelo próprio Partido Socialista, deita-se abaixo a reputação desse partido e das pessoas que dele fazem parte, sem qualquer facto indiciário ou qualquer prova, baseando-se apenas no comentário de um membro da Casa Civil, faz-se uma campanha eleitoral destes casos contra esse mesmo partido e, pelos vistos, esse foi o partido que aproveitou isso em seu favor. Genial!
Prossegue, referindo que descobriu, em Agosto, que o sistema informático da Presidência da República poderia ter sido violado e que, por isso, contactou especialistas no final de Setembro, tendo ficado a saber que o sistema tem vulnerabilidades.
Termina o discurso, argumentando que não cede a pressões. Depois diz que foi pressionado pelo PS. Remata a dizer que não queria, mas foi obrigado a falar ao país.  É um poeta, quando está calado;

Sâo efectuadas buscas em diversos escritórios de advogados, por causa da compra, pelo Estado Português, de submarinos no tempo em que Paulo Portas era Ministro da Defesa. Levantam-se suspeitas de "corrupção", "peculato", "branqueamento de capitais" e coisas afins. Aparecem na televisão imagens de Paulo Portas em 2003 a piscar o olho a um marinheiro.


No futebol:

O Benfica goleou o Leixões por 5-0;

O Sporting queixa-se da arbitragem antes do jogo com o F. C. Porto, perde o derby e queixa-se da arbitragem depois do jogo com o F. C. Porto. Paulo Bento arriscou-se a um castigo que poderia ir de 2 meses a 2 anos e foi suspenso por 12 dias.


Na sociedade:

Todos os dias aparecem cerca de 15 ou 2065 novos casos de gripe A em Portugal. Os irresponsáveis dos directores das escolas não encerram os estabelecimentos de ensino porque há cinco crianças e meia com gripe. Os insensíveis dos espanhóis passam a fronteira para nos virem roubar tamiflú, fazendo com que as nossas criancinhas não tenham oportunidade de se salvarem.



Enfim. Em Portugal, tudo normal.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Marginal da cidade

Lamento, mas o título não se refere à minha pessoa. Refere-se, isso sim, à Avenida 4 de Fevereiro em Luanda, mais conhecida por "marginal", certamente a zona urbana mais bonita da cidade e, porventura, de toda a Angola.

Ontem, domingo, encorajado pelo dia fantástico que anunciou o início de uma temporada solarenga e de quentes temperaturas, decidi conhecer melhor a zona onde habito. E para conhecer realmente a sociedade onde estamos inseridos não há melhor do que andar a pé.

Sempre adorei conduzir sem destino, andar sem destino e viajar sem destino, referindo-me ao vocábulo no sentido de "direcção". E ainda de viver sem destino, referindo-me ao vocábulo no sentido de "fatalidade" em que não acredito.

Também não acredito em deixar de sentir, deixar de fazer ou deixar de viver, por medo ou insegurança. Se assim fosse, não teria vindo para Angola. Se assim fosse, não teria saído sozinho, a vaguear loucamente pelas ruas de Luanda. T-shirt vestida, ténis calçados, peito cheio, passo firme, nariz empinado, braços abertos e movimento gingão. Típico, dirão alguns. Útil, diria eu.

Ontem, o destino não me levou a lado algum. Mas fui levado com destino à marginal.


(Marginal ao final da tarde, no sentido do Porto de Luanda):


(A marginal está a ser remodelada, incluindo o paredão. Toneladas de areia foram já descarregadas em cima da água):


(O que fez com que, junto ao Porto de Luanda, ficasse uma espécie de praia. Apesar do cheiro nauseabundo a maré vazia e da água com qualidade tipo rio Tejo no Cais do Sodré, havia imensas pessoas a tomar banho, outras a apanhar sol e algumas apenas a pescar):


(Agora a caminhar em sentido inverso, com o Porto de Luanda para trás):


(O Sol estava quase tão bonito como o seu reflexo na água):


(Ao final dos dias de semana é frequente ver pessoas a fazer jogging nesta zona. Se cá vierem, é possível encontrarem-me... sentado numa esplanada do outro lado da estrada):
 

Estreias...

Sexta-feira passada. Final do dia de trabalho. Início do dia do homem.

Depois de afundar as Oreo num copo de leite, conforme havia prometido, decidi efectuar algo ainda mais másculo. E o que pode haver de mais caracterizador da posição firme do macho dominante do que ir às compras? Nada. Então fui às compras.

Como era o seu dia, o motorista da empresa já tinha terminado o serviço e ido festejar sem dizer nada a ninguém. E isso inclui a esposa, claro.

Desse modo, decidi iniciar-me nessa grande aventura rowlingiana que é conduzir numa cidade como Luanda. O facto de ser hora de ponta, de nunca ter conduzido em Angola, de nunca ter conduzido um jipe, de nunca ter conduzido um carro automático, de nunca ter conduzido um veículo tão grande (6 metros de comprimento e 2 de largura) e de ser perigoso conduzir em Luanda, deveriam ter sido motivos suficientes para me impedir. Mas não foram. Eu precisava mesmo daqueles quinhentos gramas de bróculos que iriam tornar delicioso o meu jantar. Portanto prossegui.

Devo dizer que a viagem até correu bem, depois dos 15 minutos iniciais para descobrir como arrancar. Mas consegui, iniciando-me no mundo dos automobilistas em Luanda. E parei 2 minutos depois, com o trânsito. Estradas esburacadas, cruzamentos com sinalização a menos, cruzamentos com sinalização a mais, centenas de veículos, ultrapassagens por ambos os lados, candongueiros desenfreados, condutores com falta de tempo e de civismo, buzinadelas constantes e vendedores ambulantes a ziguezaguear por entre os carros fazem com que conduzir em Luanda seja qualquer coisa como jogar golfe completamente despido no quintal duma família de canibais esfomeados da Austrália. E para quem não entendeu o perigo subjacente: eu nunca joguei golfe!

Enquanto conduzia, consegui tirar uma foto dum Ferrari que avançava à minha frente:



sábado, 26 de setembro de 2009

Atracção...ou desocupação?

Não é que estava agora a jogar Fifa para descontrair um pouco, sofro um golo (não se preocupem porque estava a vencer 2-0 na altura) e ouço vindo da rua alguém gritar "Golo!".

Quando olho pela janela reparo que estão duas personagens especadas na varanda em frente à minha janela, a assistir calmamente ao jogo que estava a decorrer.

E o pior de tudo é que estavam a torcer pelo computador!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Dia do homem

Hoje é dia do homem.  Hoje e todas as sextas-feiras neste belo país à beira-mar plantando (sim, Angola também está à beira-mar plantada, tal como dezenas de outros países ao redor do globo). O dia do homem não é mais do que uma desculpa para a partir das 13 horas se estar de fim-de-semana. Os homens saem mais cedo do trabalho para irem descontrair e beberem qualquer coisa, que é como quem diz uns litros de bebidas etilizadas.

Como ainda sou novo nestas andanças, bebi água ao almoço e marquei duas reuniões para o período da tarde, tendo inclusive recebido o seguinte elogio, vindo de um cliente: "obrigado pela sua consideração de me atender no dia do homem". "Estás cá com uma narsa", pensei. E depois o cliente tropeçou ao subir o último degrau da escadaria para entrar no escritório, batendo com a cabeça numa esquina e rebolando, depois, pelas escadas abaixo até permanecer redondo no chão. Ou então isto é tudo mentira e estou a inventar desde a parte da queda só porque é dia do homem e posso fazer o que me apetecer. E agora, porque quero, posso e mando, vou ali vestir o meu pijaminha e afundar umas Oreo num copo de leite. À homem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Dicionário Angola - Portugal

O português, sendo a língua oficial de Angola, é falada por todos os nacionais. Todavia, existem outras línguas e dialectos locais que também fazem parte da cultura angolana. Um dos mais comuns é o kimbundo. O kikongo também é bastante falado, apesar de ser originário do Congo [O Congo e a República Democrática do Congo norteiam Angola, apesar de apenas este último fazer fronteira]. Além disso, são inventadas novas palavras frequentemente. Um calão, que se espalha facilmente pelo país e além-mares. Portugal incluído.

Como sou um tipo porreiro, além de imensamente atraente, vou dar-vos uma lição de dialectos locais. Não me perguntem se é kimbundo, kikongo ou calão porque não faço ideia.

Imaginem dois amigos a conversar.

Versão Angolana:

"- Oxi camene! Já sabes se vens com a tua dama no machimbombo e se nos encontramos junto à zungueira para comprarmos o mata-bicho?
- Ainda.
- Qual é a maca?
- A dama tá incomodada e só pode ir se o machimbombo não fizer mbaias.
- Não tem maca, tás armado em pula? Aquilo não é uma candonga!
- Ya. m'baji, Xirimbimbi"

Versão Portuguesa:

"- Bom dia! Já sabes se vens com a tua namorada no autocarro e se nos encontramos junto à vendedora ambulante para comprarmos o pequeno-almoço?
- Ainda não.
- Qual é o problema?
- A minha namorada está doente e só pode ir se o autocarro não fizer manobras perigosas.
- Não há problema, estás armado em branco? Aquilo não é uma candonga!
- Ya. Até amanhã, Xirimbimbi "

Palavras e seu significado:

- oxi camene: bom dia [kikongo]
- dama: namorada
- machimbombo: autocarro
- zungueira: vendedora ambulante
- mata-bicho: pequeno-almoço
- ainda: ainda não
- maca: problema
- incomodado/a: doente
- mbaia: manobra perigosa
- pula: branco (com conotação ofensiva, normalmente)
- candonga: carrinhas azuis e brancas sobre as quais já tive oportunidade de escrever
- ya: sim [adivinhem de onde derivou esta tão usada palavra em Portugal? Alemanha? Errado!]
- m'baji: até amanha [kikongo]
- Xirimbimbi: Não tem significado. Mas é um apelido extremamente engraçado.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Duas semanas

Com duas semanas de Angola:

- Não fui assaltado;
- Não fiquei doente;
- Não vi girafas;
- Não vi elefantes;
- Não vi crocodilos;
- Não paguei gasosas;
- Não fui atacado por tubarões na praia;
- Não fui atacado por tubarões em lado nenhum;
- Vi farmácias;
- Vi ambulâncias (na verdade foi só uma);
- Vi restaurantes (alguns caros, outros mais caros ainda);
- Vi supermercados;
- Vi trânsito;
- Vi horas de ponta;
- Estive no trânsito em horas de ponta;
- Tenho uma máquina de café;
- Tenho internet;
- Tenho empregadas que fazem a comida;
- Tenho empregadas que tratam da roupa;
- Tenho empregadas que faltam de vez em quando;
- Tenho televisão;
- Tenho música do vizinho do lado;
- Tenho água corrente;
- Não tenho pressão na água corrente;
- Tenho um blog;
- Tenho electricidade, às vezes;
- Não tenho televisão quando falta a electricidade. Nem internet. Nem blog. Nem água quente. Nem forno eléctrico. Nem máquina de lavar roupa. Nem máquina de café. Nem paciência.
- Tenho sobrevivido.

domingo, 20 de setembro de 2009

Noite de Luanda

Já mo tinham dito mas admito ter acolhido tais comentários com cepticismo.

Todavia, tenho de dar a mão à palmatória: a noite de Luanda é muito boa! Estive ontem no Chill Out, uma discoteca ampla, ao ar livre e situada à beira-mar.

Os ritmos tocados eram à base de música "dance", com alguns remixes de outros géneros musicais mas produzidos com qualidade. Apesar de o espaço se encontrar lotado, dava perfeitamente para dar um pézinho de dança.

O ambiente esteve impecável, sem provocações nem intolerâncias, havendo, pelo contrário, muita amizade e camaradagem. E, diga-se, alguma tensão sexual no ar.

Por momentos, senti-me na melhor das noites Lisboetas.

Ao mais alto nível!




Foto tirada do site do Chill Out:

http://www.chillout-luanda.com/home.html

sábado, 19 de setembro de 2009

Candongueiros

Em Luanda, os transportes públicos são praticamente inexistentes. Isso explica o facto de o trânsito ser caótico. Numa cidade pequena em termos geográficos, não é fácil suportar a deslocação constante dos seus mais de 5 milhões de habitantes.

Existem paragens de autocarros. Não existem é autocarros, o que faz todo o sentido.

Daí que o único meio de transporte, para aqueles que não têm automóvel, seja a utilização das carrinhas azuis de 9 lugares que em Luanda se contam aos milhares. São normalmente da marca Toyota, modelo Hiace. Uma espécie de Mercedes 180, modelo Africano.

Os seus proprietários são os chamados candongueiros e conduzem desenfreadamente pelas ruas de Luanda, arriscando manobras perigosas e pintando os tons da cidade de um azul claro.

Param nas paragens de autocarro, devidamente assinaladas, e aguardam pelos passageiros. Permanecem com a porta aberta, empoleirados na carrinha a gritar algo tipo "mais dois, mais dois!!", referindo a quantidade de lugares ainda disponíveis, apesar de já estarem  qualquer coisa como 15 pessoas lá dentro:








Estas carrinhas, cujos conta-quilómetros já deram algumas voltas, são uma verdadeira beleza mecânica. Todas idênticas mas identificáveis. Cada uma alterada conforme os gostos do candongueiro. São o tunning de Luanda: diferem nas jantes, nos ailerons e noutros adereços. Curioso é o facto de a maioria ter, no vidro de trás, frases ou palavras que as identificam. Normalmente são o nome de família ou do grupo a que pertencem ou, então, vocabulário cujo objectivo é impor respeito ou medo. Não sei se aos outros automobilistas, se aos próprios passageiros.

Como esta, que tem o nome "STORM" (tempestade):




Mas os passageiros não precisam ter medo da tempestade. Dentro da carrinha não chove. Afinal de contas, estamos na época seca.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Moamba, Cervejas, Lagostas e Gasosas

Dedico o texto de hoje àquela que é uma das mais caracterizadoras e antigas práticas institucionalizada em Angola após a independência.


Falo, claro está, da "gasosa". E não me refiro a qualquer refrigerante, dissipando desde já as eventuais dúvidas dos leitores assíduos deste blog (que são para aí 90 ou 2).

A "gasosa", como aqui é conhecida, traduz-se na prática reiterada acompanhada da convicção de obrigatoriedade de ofertar determinado numerário quando somos agracejados pela contemplação de exarcebada e insigne prestação dos Excelentíssimos Senhores Agentes da Autoridade no desempenho das respectivas funções.

Não sei de que outra forma poderia definir esta prática. Ah, não sei se ajuda, mas em Portugal chama-se "suborno".

Em Angola a corrupção é elevada a um outro patamar. Digna de filmes hollywoodescos mas sem as pipocas. Existe nos cargos públicos e em qualquer repartição ou instituição do Estado.

Mas se há área onde a prática da "gasosa" é evidente é na polícia. Estes senhores, que vestem de azul, estão constantemente à procura de resolver as suas vidinhas complicando as dos demais. Quero com isto dizer que com a mínima situação (que eles criam nos seus imaginários), nos ameaçam de passar multas, de irmos para a sua unidade operativa, de sermos presos e até de sermos recambiados para Portugal.

Fui adiando a escrita sobre esta prática à espera de ter um caso concreto para relatar. Já me contaram diversas histórias, mas esta foi na minha presença.

Imaginem um semáforo, numa das maiores avenidas de Luanda. Nesse semáforo, existe uma passadeira. Quando o sinal fica vermelho para o trânsito automóvel, fica verde para os peões.

O semáforo encontrava-se vermelho e o carro havia parado. Acontece que, apesar de não estarmos em cima da passadeira, estávamos parcialmente parados em cima duma das marcas que indicam o seu começo.

Esta imagem não é de Luanda mas creio que ajuda a visualizar o cenário. Imaginem um carro parado na marca vermelha:





(Não me pareceu apropriado estar a tirar uma foto enquanto o polícia mandava vir)

Estávamos parados e aparece um polícia do lado do condutor. Permanece de pé a olhar para dentro do carro sem gesticular ou dizer o que quer que fosse. Abre-se o vidro.


- "A sua cartá di condução?" - solicitou o respeitável agente.
- "Aqui tem!" - retorquiu o incauto condutor.
- "O senhori X. está paradu em cimá duma passádeirá" - avisou o profissional administrador da justiça.
- "Lamento senhor agente, mas a passadeira está ali à frente." - respondeu o irresponsável automobilista.
- "O Senhori X. está atrapalhari o circulação dos pessoa."

(nesta altura, eu, que não era o condutor mas estava dentro do carro, pensei que não existiam peões nenhuns naquele momento, além de que, se os houvesse, tinham espaço suficiente para atravessarem em segurança. Pensei ainda que o semáforo só esteve vermelho 10 segundos e quem estava a atrapalhar o trânsito era o polícia, uma vez que o semáforo já tinha sinal verde há algum tempo sem que pudéssemos arrancar e os carros de trás buzinavam veementemente).


- "Pari os veículo ali à frenti para os eu passari as rispectiva multa, fáfávori" - ordenou o diligente funcionário estatal.
- "Com certeza!" - confirmou o negligente proprietário do veículo.


Assim que arrancámos, acto contínuo, tirámos as notas dos bolsos, deixando de fora algumas de valor mais baixo e escondemos as restantes. Parámos e aguardámos pelo polícia, para lhe pagarmos o almoço.

Como o polícia nunca mais viesse, um dos presentes no veículo (que não o condutor) saiu e foi falar com ele. Sendo angolano, ainda que caucasiano, disse algo tipo:

- "Comé? Vamos resolver isto?" - Questionou.
- "Quem divia apareceri era o seu condutori." - Respondeu o eficaz agente da autoridade.
- "Ele não pode aparecer porque está parado na berma da estrada. Comé, resolvemos isto, ya?" - Repetiu o angolano.
- "Entregui isto ao seu condutori." - Solicitou o Einstein dos fardamentos azuis.

E foi mais ou menos nessa altura que o agente entregou, não a multa que havia ameçeado passar, mas antes a carta de condução que havia solicitado. E também foi mais ou menos por essa altura que poupámos uns quantos dólares que já havíamos dado por perdidos. Coincidência?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cabo Ledo

Na minha primeira ida à praia em terras angolanas tive o privilégio de ficar a conhecer Cabo Ledo.

Situa-se a cerca de 125 kms do centro de Luanda. É verdade que para ir à praia não era necessário percorrer tantos quilómetros mas também é verdade que este lugar é quase paradisíaco e o facto de estar isolado do centro urbano torna-o ainda mais apetecível. Além disso, a fama de Cabo Ledo só é ultrapassada pela fama das suas lagostas.


A viagem não é fácil, quase sempre em estradas secundárias (imaginem um IC sem separador central e com 20 metros de largura. Boa. Agora tirem-lhe 12 metros de largura).


Pelo caminho somos brindados com paisagens de terra batida, árvores quase despidas e dezenas de pessoas. Pessoas que se colocam estrategicamente na berma da estrada, munidos de uma pequena banca feita de madeira. Nessa banca encontramos de tudo (tabaco, fruta, peixe, artesanato, água, gasolina). Alguns angolanos, menos afortunados, não têm banca e seguram nos objectos com as mãos, levantando-os à medida que os veículos passam por eles.

Tirando a côr dos veículos, a paisagem pinta-se em tons de um castanho-acinzentado:


Justifico a má qualidade da foto pelo facto de terem de ser tiradas no interior da viatura em andamento e de vidros fechados.

Para chegar ao destino é necessário atravessar a ponte sobre o rio Kwanza (maior rio de Angola e que dá nome à moeda local):



Vários quilómetros adiante o alcatroado termina. Vira-se à direita e circula-se em terra, literalmente. Circula quem tiver jipe, obviamente. Algumas dezenas de metros de altos e baixos e chegamos a Cabo Ledo.

Ei-la:

(no período da manhã, quase deserta)
(ainda de manhã, com criança a brincar à beira-mar)
(o tempo melhorou da parte da tarde)
(são vários os chapéus de sol)


Tempo: Nublado de manhã, com algumas abertas da parte da tarde.
Temperatura ambiente: Amena.
Vento: Fraco ou inexistente.
Temperatura da água do mar: Agradável para quem está habituado às praias portuguesas, fria para quem é frequentador assíduo das praias africanas.

Se forem todas assim, auguro-me a mim mesmo vários bons fins-de-semana num futuro. Próximo, claro.